A utilidade de um calendário inútil
A manhã estava chuvosa, e o movimento nas ruas centrais era intenso, nesses últimos dias do ano de dois mil e dez. Apressada, como todo mundo também estava, entrei no banco, quando a senhora à minha frente deixou cair um pedaço de papel. Apanhei o retângulo de cartolina pequeno e colorido, e chamei-a para entregar-lhe. Ela sorriu, iluminando o rosto bonito, e disse: “Obrigada. Não ia fazer falta, mesmo é só um calendário de 2010!”. Pronto. Foi o que bastou para que os sintomas dessa doença estranha que acomete os escritores se manifestasse. Não só os escritores, devo dizer, mas todos os que praticam alguma arte sofrem desse mesmo “comichão”... A inspiração chegara, e tinha que sair logo, ao menos em esboço, para depois ser trabalhada, e enviada aos que costumam ler o que escrevo. Tenho por hábito levar sempre, na bolsa, um bloquinho, exatamente para essas ocasiões em que a boa ideia vem, mas por falta de anotar vai embora, e não volta, ou volta bem diferente da forma que veio, pura, original. Anotei a ideia, e esperei o momento de sentar-me em frente ao computador para adequar a inspiração à técnica, culminando assim o ato da criação. Exatamente como faz um compositor diante da inspiração e da pauta musical. Foi assim que aconteceu. Aquela jovem senhora e seu calendário de cartolina me inspiraram, e acho que ela nem sabe disso, ou, se for minha leitora, saberá agora. Fiz o que tinha que fazer no banco, e não era muita coisa, porque dinheiro, no fim do ano, acaba mais depressa que brigadeiro em festa de criança, e fui embora, com o calendário na cabeça. Sem dúvida, 2010 foi um ano intenso, para todos nós, acredito. Houve perdas e ganhos. Como brasileira, frustrações também aconteceram, desencanto com nossos governantes, aliado à teimosa esperança, marca registrada de quem nasce nesse país. Neste exato momento em que você está me lendo, entramos no ano-novo, e os rituais de minha família foram repetidos, em minha casa, ou onde quer que eu tenha passado a “virada”. Sim, porque escrevo a matéria com uns dias de antecipação, e ainda não sei se ficaremos por aqui ou se vamos ver o ano chegar em outra cidade, a convite de amigos, para sair um pouquinho da rotina. De qualquer forma, aqui ou onde quer que eu tenha passado a virada de ano, vesti branco, usei a cumbuquinha virgem, de barro, como expliquei a semana passada, para colocar as coisas ruins do ano velho e queimar à meia-noite, tudo bem enroladinho. O fogo prepara nossos espíritos para jogar pela fumaça o que nos entristeceu, e saudar o ano-novo com o coração limpinho, confiantes de que, agora, tudo vai dar certo. Se não chegar o carro novo, chegará a certeza de que somos felizes, mesmo com o carro usado, mas eficiente; se não vier o prêmio da mega-sena, ou alguma herança inesperada, há de estar na mesa o pão nosso de cada dia. Se não pudermos ir a Paris ou voltar à querida Itália, quem sabe o mar brasileiro nos acolherá, felizes, em algum dia do ano-novo, ao lado das pessoas que amamos? Afinal, o iodo e o sal marinho são saudáveis e afrodisíacos, tanto no Oceano Pacífico, como no Mar Mediterrâneo ou no Atlântico. Que não falte, em cada mesa, neste ano que chegou, nosso feijão com arroz, nossa comidinha gostosa e básica, além do bendito franguinho com macarronada dos domingos. Haja, meu Deus, tolerância e respeito das pessoas para com a diversidade humana, em todas as suas manifestações, sejam de raça, cor, credo, orientação sexual, enfim, que todas as pessoas sejam respeitadas e amadas como nosso Pai Eterno as ama, sem condições. Que não falte o trabalho sagrado para pais e mães de família, e que haja famílias para pais e mães que as desejam. Haja escola para nossas crianças e jovens, amparo aos idosos, acesso à justiça e à saúde para todos os brasileiros e brasileiras. Um lindo ano-novo para vocês, que me leram por todos esses meses. Feliz 2011, que está começando, auspicioso e sorridente, para todas as criaturas. Paz e Bem.
MARIA RITA LEMOS É PSICÓLOGA E TERAPEUTA FAMILIAR E ASSINA AOS DOMINGOS ESTA COLUNA. FONES PARA CONTATO: (19) 3442.1727 / 9747.6445
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