O Ano Novo Mora no Hoje
O Ano Novo chega como um visitante ilustre. Vestimos roupas claras, fazemos listas ambiciosas, brindamos com esperança e prometemos a nós mesmos versões melhoradas de quem somos. O curioso é que, passado a queima de fogos e a ressaca emocional do primeiro dia útil, o tal Ano Novo vai embora silenciosamente, deixando em seu lugar algo muito menos glamouroso e muito mais poderoso: o hoje.
Porque, se formos honestos, a vida não acontece em “anos novos”. Ela acontece em dias comuns. Acontece numa terça-feira qualquer, entre um café morno e um e-mail inesperado. Acontece agora enquanto você lê o que eu escrevi.
Talvez o encanto do Ano Novo esteja menos no calendário e mais no símbolo. Ele nos dá permissão para recomeçar. Mas aqui vai uma pergunta incômoda e libertadora: por que precisamos de uma data solene para isso, se todo dia amanhece com o mesmo potencial de estreia?
Cada manhã é, em essência, um pequeno Ano Novo. Um ciclo que se fecha durante a noite e outro que se abre quando abrimos os olhos. O sol não pergunta se você está pronto. Ele simplesmente nasce. E nos convida, com uma gentileza insistente, a nascer junto.
Freud, mesmo sem jamais ter sido um entusiasta de frases motivacionais de geladeira, nos ensinou algo essencial sobre o tempo presente. A psicanálise acontece no agora. É no hoje que os conteúdos do passado se manifestam, é no hoje que os sintomas falam, é no hoje que a cura pode começar. Para Freud, não é o ontem em si que nos aprisiona, mas a forma como ele continua atuando no presente. Em outras palavras: é sempre hoje que a vida acontece - inclusive quando estamos presos ao passado.
O inconsciente não mora no calendário. Ele mora no agora.
E se o sofrimento insiste em se repetir, também é no hoje que a possibilidade de mudança se apresenta. Não na segunda-feira perfeita, não no próximo ano, não quando tudo estiver sob controle. Mas neste dia imperfeito, exatamente como ele é.
Os filósofos antigos pareciam saber disso muito antes de nós. Sêneca alertava que “enquanto adiamos, a vida passa”. Marco Aurélio, em suas Meditações, lembrava que o único tempo que realmente possuímos é o presente, e que desperdiçá-lo em ansiedade sobre o futuro ou lamentos sobre o passado é uma forma sofisticada de ausência. Epicuro, por sua vez, defendia que a felicidade não está em grandes promessas futuras, mas na capacidade de desfrutar o agora com sobriedade e gratidão.
Nada disso é um convite ao descaso ou à falta de planejamento. É um convite à presença. Planejar o futuro é saudável; viver nele, não. O futuro é um rascunho. O hoje é a obra final.
A Bíblia, com sua sabedoria atemporal, também nos chama constantemente de volta ao presente. Em Eclesiastes, lemos: “Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu” (Eclesiastes 3:1). O texto não fala de um tempo ideal, perfeito ou extraordinário. Fala do tempo que é. Do tempo dado.
Mais adiante, o mesmo livro nos oferece um conselho surpreendentemente simples e profundamente humano: “Vai, pois, come com alegria o teu pão, e bebe com coração contente o teu vinho; porque Deus já se agrada das tuas obras” (de novo o livro do Eclesiastes, meu favorito). Nada de esperar o ano virar, a conta melhorar ou a vida se organizar. É hoje. Come. Bebe. Vive. O Eclesiastes parece sussurrar, com uma sabedoria quase bem-humorada: a vida não está no controle, então pare de adiar a alegria.
Talvez por isso o Ano Novo nos emocione tanto. Não pelo que ele é, mas pelo que ele simboliza: a esperança de que o hoje seja diferente. A ironia é que essa mesma esperança acorda conosco todas as manhãs, só que sem fogos de artifício.
Receber o dia novo com a mesma gratidão com que recebemos o Ano Novo é um exercício revolucionário. Significa olhar para uma quarta-feira comum com o mesmo respeito com que olhamos para o dia 1º de janeiro. Significa entender que a vida não se resolve em grandes viradas, mas em pequenos gestos repetidos: levantar-se, respirar, tentar outra vez.
A vida é feita de hojes. De conversas possíveis, de silêncios necessários, de erros que ensinam e de acertos que não fazem barulho. A vida é feita do que fazemos quando ninguém está contando os segundos para a meia-noite.
Talvez a maior maturidade seja perceber que não precisamos de um novo ano para sermos novos. Precisamos apenas estar inteiros no dia que já chegou.
Então, que este Ano Novo - com toda a sua simbologia bonita - nos ensine algo simples e transformador: todo dia é digno de gratidão. Todo dia é uma chance legítima de recomeço. Todo dia carrega, discretamente, a mesma promessa que celebramos em janeiro.
E quando o próximo Ano Novo chegar, que possamos brindar não apenas aos planos, mas aos muitos hojes que soubemos viver. É isso que levamos conosco: não os anos que passaram, mas os dias que realmente habitamos.
Comentários
Compartilhe esta notícia
Faça login para participar dos comentários
Fazer Login