E o Brasil Acordou: Entre a Ressaca, o Glitter e o Começo Oficial do Ano
O Brasil é um país com uma
relação muito particular com o tempo. Aqui, janeiro é um ensaio, fevereiro é um
aquecimento, e só depois do carnaval é que o ano realmente começa. É quase um
acordo tácito, uma lei não escrita, um pacto nacional: ninguém está
emocionalmente autorizado a levar a vida a sério antes do último bloco passar.
E quando finalmente passa, quando o confete já está grudado no asfalto, quando
o glitter insiste em permanecer no couro cabeludo, quando o abadá vira pano de
chão, aí sim o brasileiro respira fundo e diz: “Agora vai.”
E é sempre assim. Todo ano. Sem
exceção. O Brasil só desperta de verdade quando o último tamborim se cala. Até
lá, estamos todos em modo de espera, como se a vida estivesse carregando uma
atualização importante e só pudéssemos clicar em “iniciar” depois da quarta‑feira
de cinzas. E o mais curioso é que ninguém reclama. Pelo contrário: parece que
gostamos dessa coreografia coletiva, dessa pausa prolongada, desse ritual de
transição que mistura fé, festa e
fantasia.
Mas este ano, ah… este ano
promete ser ainda mais peculiar. Porque, além do carnaval, teremos Copa do
Mundo e eleições. Ou seja: se o brasileiro já é naturalmente um ser
emocionalmente envolvido com o calendário, agora teremos três grandes eventos
capazes de reorganizar humor, agenda, prioridades e até amizades. É como se
2026 tivesse sido desenhado especialmente para testar nossa capacidade de rir,
torcer, discutir, se estressar e, claro, sobreviver.
E o pós‑carnaval é sempre um espetáculo à parte. É o momento em que o país inteiro acorda com aquela sensação de “onde eu estava nos últimos dias?”. As pessoas voltam ao trabalho com olheiras que contam histórias, com glitter que resiste a três banhos,
com a voz meio rouca e com uma saudade que não sabem
explicar. O brasileiro tem essa habilidade rara de viver intensamente e, ao
mesmo tempo, fingir que nada aconteceu. Na quinta‑feira pós‑folia,
todo mundo aparece no escritório com a mesma
frase pronta: “Nossa, nem pulei tanto assim.” Claro.
Só desfilou em três blocos, perdeu dois amigos no meio da multidão, encontrou
outros cinco que não via desde 2014, dançou até o joelho pedir arrego e jurou
amor eterno para alguém cujo nome não lembra mais. Mas “nem pulou tanto assim”.
E aí vem o domingo posterior ao
carnaval, esse domingo especial em que o país inteiro parece estar se olhando
no espelho e dizendo: “Ok, Brasil, agora é sério.” É o domingo da reorganização
emocional, da promessa de beber menos, da tentativa de voltar para a academia,
da decisão de começar a dieta, da busca por um novo propósito de vida que dure
pelo menos até abril. É o domingo em que o brasileiro abre a agenda, olha para
os meses seguintes e pensa: “Meu Deus, como é que eu vou encaixar trabalho,
Copa e eleições na mesma vida?” E a resposta é sempre a mesma: do jeito
brasileiro. Ou seja, improvisando, rindo, reclamando, torcendo, discutindo, se
emocionando e, no fim das contas, dando um jeito.
Porque o brasileiro sempre dá um
jeito. É quase uma habilidade genética. A gente pode não saber onde guardou o
carregador do celular, mas sabe exatamente como transformar qualquer situação
em meme. Pode não lembrar onde deixou a chave de casa, mas lembra de cor a
escalação da seleção de 2002. Pode não ter decidido ainda em quem vai votar,
mas já tem opinião formada sobre o VAR, o técnico, o juiz e o gramado. Somos um
povo que leva a vida com uma mistura de seriedade e humor que só faz sentido
aqui. E talvez seja isso que nos salva.
E se tem algo que o pós‑carnaval
nos ensina todos os anos é que o brasileiro é resiliente. Não no sentido técnico da psicologia, aquele que aparece nos artigos científicos, mas no sentido afetivo, cotidiano, quase poético. A gente cai, levanta-se, samba, tropeça, ri, chora, se recompõe e segue. A
vida pode estar difícil, o país pode
estar confuso, o futuro pode estar incerto, mas se tiver um bloco passando na
rua, a gente vai atrás. E se não tiver
bloco, a gente inventa um. É quase um mecanismo de defesa
coletivo, uma forma de transformar caos em festa, preocupação em piada, tensão
em música.
E agora, com o carnaval
oficialmente encerrado, o Brasil entra naquele modo “agora vai” que mistura
esperança, ansiedade e uma leve preguiça. As pessoas começam a falar de metas,
de projetos, de planos. Começam a organizar a vida financeira, a pensar nas
férias, a planejar mudanças. Mas tudo isso com aquele jeitinho brasileiro de
não levar nada tão a ferro e fogo. Porque, no fundo, sabemos que o ano ainda
vai nos surpreender - e muito. Teremos Copa, teremos eleições, teremos debates
acalorados, teremos bandeiras nas janelas, teremos buzina, teremos gritos,
teremos lágrimas, teremos abraços. Teremos de tudo. E, como sempre, vamos
sobreviver.
O mais bonito é que, apesar de
tudo, o brasileiro mantém uma fé quase teimosa no futuro. Uma fé que não se
explica racionalmente, mas que se sente. Uma fé que atravessa crises, mudanças,
tropeços e ressacas. Uma fé que diz, baixinho, no domingo pós‑carnaval:
“Vai dar certo.” E talvez
seja essa fé que nos move. Talvez seja ela que nos faz
levantar na segunda‑feira com glitter no cabelo e esperança no peito. Talvez seja ela que nos faz acreditar que, mesmo em
um ano atípico, cheio de emoções,
disputas e expectativas, ainda há espaço para alegria, para humor, para leveza.
E é por isso que, neste domingo
especial, vale a pena respirar fundo e lembrar: o ano começou. De verdade.
Agora não tem mais desculpa. Agora é hora de viver, de trabalhar, de torcer, de
votar, de rir, de reclamar, de amar, de tentar de novo. Agora é hora de ser
brasileiro em sua forma mais autêntica: exagerado, apaixonado, dramático,
engraçado, resiliente e, acima de tudo, esperançoso.
O Brasil sempre começa depois do
carnaval. E, quando começa, começa com tudo.
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