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Narcisismo: Entre O Espelho E O Vazio

O termo narcisismo costuma ser usado no cotidiano como sinônimo de vaidade excessiva, ego inflado ou simples falta de empatia. No entanto, quando observado à luz da psiquiatria e da psicanálise, o narcisismo revela-se um fenômeno muito mais complexo, que envolve a construção da identidade, a relação com o outro e a forma como o sujeito lida com suas próprias fragilidades. Falar sobre personalidade narcisista exige cuidado para não cair em simplificações ou rótulos fáceis, especialmente quando o objetivo é dialogar com leitores do senso comum.

Na psiquiatria, fala-se em Transtorno de Personalidade Narcisista quando há um padrão persistente de grandiosidade, necessidade intensa de admiração e falta de empatia, presente desde o início da vida adulta e manifestado em diversos contextos. Nem toda pessoa vaidosa ou autocentrada é narcisista do ponto de vista clínico. O diagnóstico envolve critérios específicos, como a crença de ser especial ou superior, a exploração dos outros para alcançar objetivos próprios, a dificuldade em reconhecer sentimentos alheios e uma sensibilidade extrema a críticas, mesmo quando estas são sutis.

Já a psicanálise compreende o narcisismo como parte constitutiva do desenvolvimento humano. Sigmund Freud descreveu o chamado narcisismo primário como uma etapa inicial da vida, em que a libido está investida no próprio eu. Esse momento é saudável e necessário para a formação do psiquismo. O problema surge quando, por diferentes razões, o sujeito permanece excessivamente fixado nesse modo de funcionamento, desenvolvendo um narcisismo patológico. Nesse caso, o amor por si mesmo deixa de ser estruturante e passa a funcionar como defesa contra sentimentos profundos de vazio, insegurança e desvalia.

Do ponto de vista psicanalítico, o narcisista não é alguém que se ama demais, mas alguém que, paradoxalmente, não consegue sustentar uma autoestima estável. Por trás da aparência de autoconfiança, frequentemente há uma identidade frágil, que depende constantemente do olhar e da validação do outro. O outro, porém, não é reconhecido como sujeito, mas utilizado como espelho, alguém que deve refletir admiração, submissão ou confirmação da superioridade narcísica.

A literatura, o cinema e as novelas oferecem inúmeros exemplos de personagens com traços narcísicos marcantes, o que ajuda a tornar o tema mais compreensível. Um exemplo clássico da literatura é Dorian Gray, personagem de Oscar Wilde, um dos meus escritores favoritos. Dorian vive obcecado pela própria imagem, pela juventude e pela admiração que desperta. Sua incapacidade de assumir responsabilidades emocionais e morais, bem como o uso dos outros para satisfazer seus desejos, ilustram com clareza a lógica narcísica. A beleza e o charme funcionam como escudos contra qualquer contato genuíno com a culpa, o envelhecimento ou a finitude.

No cinema, o personagem Jordan Belfort, de O Lobo de Wall Street, também expressa traços narcísicos evidentes. Sua sensação de grandiosidade, a crença de estar acima das regras e a exploração sistemática das pessoas ao redor revelam uma dinâmica em que o outro existe apenas como meio para a manutenção do próprio poder e prazer. Ainda que o filme retrate exageros, ele evidencia um ponto central: o narcisista tende a confundir sucesso, status e admiração com valor pessoal.

Nas novelas, figuras carismáticas, sedutoras e manipuladoras são frequentemente construídas com base nesse tipo de personalidade. São personagens que encantam no início, mas que, ao longo da trama, mostram-se incapazes de sustentar relações afetivas verdadeiras. O abandono emocional, a traição, a humilhação do outro e a dificuldade em reconhecer erros aparecem como comportamentos recorrentes.

No cotidiano, os comportamentos típicos de uma personalidade narcisista podem ser percebidos em diferentes graus. Entre eles, destaca-se a necessidade constante de ser o centro das atenções, a dificuldade em ouvir críticas sem reagir com raiva ou desprezo, a tendência a se colocar sempre como vítima ou como herói das situações e a falta de empatia diante do sofrimento alheio. É comum que o narcisista minimize sentimentos dos outros, invalide experiências emocionais e transforme qualquer diálogo em uma disputa por superioridade.

Outro aspecto frequente é a idealização e desvalorização nas relações. No início, o outro é visto como perfeito, admirável e indispensável. Com o tempo, quando deixa de atender às expectativas narcísicas, passa a ser criticado, desqualificado ou descartado. Esse movimento gera relações instáveis, marcadas por confusão emocional e sofrimento, especialmente para quem convive intimamente com esse tipo de personalidade.

Diante da convivência com um narcisista, uma das orientações mais importantes é reconhecer os próprios limites. Esperar empatia, mudanças rápidas ou reconhecimento emocional genuíno costuma levar à frustração. Estabelecer limites claros e principalmente  evitar confrontos diretos baseados apenas em apelos emocionais e preservar a própria saúde psíquica são atitudes fundamentais. Em muitos casos, o afastamento emocional - e às vezes físico - torna-se necessário para evitar relações abusivas.

Também é essencial compreender que o narcisista raramente reconhece sua responsabilidade nos conflitos. Tentar convencê-lo por meio de argumentos racionais ou emocionais pode reforçar o jogo de poder e desgaste. Buscar apoio psicológico para si mesmo é uma forma saudável de elaborar o impacto dessa convivência e fortalecer a autoestima, frequentemente abalada em relações desse tipo.

Quanto à possibilidade de tratamento, tanto a psiquiatria quanto a psicanálise reconhecem que a personalidade narcisista pode se beneficiar de acompanhamento terapêutico, embora o processo seja, em geral, longo e desafiador. Um dos principais obstáculos é justamente a dificuldade do narcisista em reconhecer que precisa de ajuda. Muitos só procuram terapia diante de perdas significativas, crises profissionais, rompimentos afetivos ou sintomas depressivos, entretanto costumam abandonar o processo.

A psicanálise oferece um espaço privilegiado para que o sujeito possa, gradualmente, entrar em contato com suas fragilidades, compreender a origem de suas defesas narcísicas e desenvolver uma relação mais autêntica consigo mesmo e com os outros. Não se trata de “deixar de ser narcisista” de forma abrupta, mas de ampliar a capacidade de empatia, tolerar frustrações e construir uma autoestima menos dependente da admiração externa.

A psiquiatria, por sua vez, pode atuar de forma complementar, especialmente quando há comorbidades como depressão, ansiedade ou impulsividade. O uso de medicação não trata o narcisismo em si, mas pode aliviar sintomas associados que dificultam o engajamento no processo terapêutico.

Em última instância, falar sobre narcisismo é falar sobre o humano e suas contradições. Todos nós carregamos traços narcísicos, necessários para a autopreservação e o amor-próprio. O problema surge quando esses traços se tornam rígidos, excludentes e geradores de sofrimento. Reconhecer essa diferença é fundamental para evitar julgamentos simplistas e, ao mesmo tempo, proteger-se de relações que adoecem. Entre o espelho e o vazio, o narcisismo nos lembra que a verdadeira maturidade emocional nasce do encontro genuíno com o outro e consigo mesmo.

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