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O Chamado do Abismo: Por Que Buscamos o Que Pode nos Destruir

Uma reflexão sobre risco, adrenalina e o cérebro jovem à luz da psicanálise

Há uma cena que se repete em diferentes formas ao redor do mundo: um jovem na beira de uma ponte, no pico de uma montanha, na plataforma de uma atração de risco extremo. O coração dispara. Os pulmões se contraem. E então, o salto. Por um instante, o mundo some. Só existe aquilo. Só existe agora.

Esta semana eu fui sacudida por uma tragédia que transformou esse instante em luto. Uma jovem foi arremessada em um salto sem a corda de segurança. O que era para ser uma experiência de emoção extrema tornou-se irreversível em frações de segundo. O país parou. As famílias se olharam. E uma pergunta silenciosa, difícil, necessária começou a circular: por que nos sentimos tão atraídos pelo que pode nos destruir?

Este artigo não busca culpa. Não é esse o caminho. Culpa paralisa; compreensão transforma. O que buscamos aqui é entender com honestidade e com ciência os mecanismos que nos arrastam para o limite. Porque entender é o primeiro passo para proteger.

Quando nos lançamos em uma situação de risco extremo, o corpo responde com uma cascata hormonal precisa e poderosa. Tudo começa na amígdala, uma estrutura do sistema límbico responsável por detectar ameaças. Em milissegundos, ela dispara um alarme que ativa o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal e o sistema nervoso simpático.

A adrenalina é liberada pelas glândulas suprarrenais e inunda a corrente sanguínea em segundos. Ela acelera os batimentos cardíacos, dilata as pupilas, aumenta o fluxo sanguíneo para os músculos e aguça os sentidos. O corpo entra em estado de alerta máximo. É a resposta de luta ou fuga que garantiu a sobrevivência da nossa espécie por milhões de anos.

Em paralelo, o cérebro libera dopamina: o neurotransmissor do prazer e da recompensa. A dopamina não é liberada só depois, quando a emoção passa: ela é liberada em antecipação ao risco, durante ele e logo após. É ela que cria a sensação

de euforia intensa, de onipotência, de estar completamente vivo. E é ela, também, que cria o ciclo de repetição: o cérebro aprende que aquele comportamento gera prazer e passa a desejá-lo novamente.

Há ainda a noradrenalina, que intensifica o estado de atenção e foco; o cortisol, que mobiliza energia e sustenta o estado de alerta por mais tempo; e, no momento do alívio após o risco, as endorfinas e a serotonina, que produzem aquela sensação de bem-estar profundo, quase de paz - a mesma que os praticantes de esportes radicais descrevem como "o melhor sentimento do mundo".

O resultado é uma experiência neurológica de altíssima intensidade, incomparável com a maioria dos prazeres cotidianos. O problema é que o cérebro, por natureza, busca igualar ou superar experiências anteriores. Depois do primeiro salto, o segundo precisa ser mais alto. Depois do primeiro mergulho, o próximo precisa ser mais fundo. A tolerância aumenta. E o risco, para gerar a mesma resposta, precisa crescer junto.

Freud, ao desenvolver sua teoria dos instintos, identificou uma tensão fundamental no ser humano: a oposição entre Eros (o instinto de vida, de preservação, de construção) e Tânatos (o instinto de morte, de dissolução, de retorno ao estado inorgânico). Para Freud, esses dois impulsos coexistem em nós, e grande parte da nossa vida psíquica é moldada pela negociação constante entre eles.

Não se trata de um desejo consciente de morrer. É algo mais sutil e mais complexo: uma atração pelo limiar, pela fronteira entre a vida e o seu contrário. O filósofo Jacques Lacan, ao aprofundar a leitura freudiana, introduziu o conceito de gozo para descrever uma forma de prazer que ultrapassa o princípio do prazer e adentra o território da dor, do excesso, da transgressão. O gozo é o prazer que dói, que assusta, que esgota e que, exatamente por isso, é irresistível.

Os esportes radicais, as apostas extremas, os comportamentos de risco têm muito a ver com essa busca pelo gozo. Não são apenas "imprudências". São, muitas vezes, tentativas inconscientes de se sentir inteiro, de provar algo a si mesmo, de escapar, ainda que por instantes, do peso do cotidiano, da monotonia, da ansiedade difusa que assola a vida contemporânea.

O psicanalista Winnicott falava da importância do ambiente facilitador para o desenvolvimento do self. Quando esse ambiente falha, quando o jovem não encontra espelhos para sua subjetividade, quando não se sente visto ou reconhecido, ele pode buscar no risco uma forma de confirmar sua própria existência. "Existo porque estou aqui, no limite, vivo apesar de tudo." O salto vira um grito.

Há também a questão do vazio. A pós-modernidade criou jovens com acesso a tudo e significado para quase nada. As redes sociais amplificaram essa equação: a vida real parece opaca diante das imagens filtradas e dos momentos espetaculares que circulam em loop. O risco extremo, especialmente quando filmado e compartilhado, oferece uma experiência genuinamente intensa em um mundo onde a intensidade se tornou rara. "Aqui não tem filtro. Aqui é real." Esse é o apelo.

Uma das descobertas mais importantes das neurociências das últimas décadas é também uma das mais desconhecidas pelos pais: o cérebro humano não está completamente formado até por volta dos 25 anos de idade. Mais especificamente, o córtex pré-frontal, a região responsável pelo planejamento, pela avaliação de riscos, pelo controle de impulsos e pela tomada de decisões racionais, é a última área a completar seu desenvolvimento.

Isso significa que um adolescente ou jovem adulto literalmente não possui, ainda, a infraestrutura neurológica completa para calcular consequências a longo prazo, resistir a impulsos intensos ou avaliar adequadamente o risco real de uma situação. Não é fraqueza de caráter. Não é falta de educação. É biologia.

O desenvolvimento do córtex pré-frontal durante a adolescência é não-linear e prolongado. Enquanto o sistema límbico (associado às emoções, recompensas e impulsos) já está altamente ativo na adolescência, o sistema de controle que deveria modular esses impulsos ainda está em construção.

O resultado é um desequilíbrio funcional: muito gás, pouco freio. A busca por novidades é intensa. A sensibilidade à recompensa imediata é altíssima. A percepção de invulnerabilidade - o famoso "isso só acontece com os outros" - é uma característica típica da adolescência e tem base neurológica. Não é arrogância. É o cérebro sendo o que ele ainda é: incompleto.

Some-se a isso a influência avassaladora do grupo. O córtex pré-frontal de um adolescente funciona de forma radicalmente diferente quando ele está sozinho versus quando está com amigos. Estudos de neuroimagem mostram que a presença de pares ativa o sistema de recompensa de forma muito mais intensa nos jovens do que nos adultos. A aprovação social não é apenas desejável para um adolescente, ela é neurologicamente sedutora. E o risco, quando compartilhado ou filmado para uma audiência, ganha uma camada extra de recompensa que o torna ainda mais atrativo.

Diante desse quadro, proibir costuma ser a resposta mais imediata e menos eficaz. Um cérebro jovem que ainda não consolidou sua capacidade de avaliar riscos não responde bem ao imperativo adulto. A proibição, especialmente quando não acompanhada de explicação, pode até intensificar o apelo, afinal, o proibido tem seu próprio glamour neurológico.

O que realmente funciona é conversa honesta, informação clara e presença emocional consistente. Pais que explicam "seu cérebro ainda está se formando, e isso é real, não é fraqueza" abrem um diálogo muito mais produtivo do que pais que apenas vetam. Adolescentes que se sentem compreendidos são significativamente mais propensos a buscar orientação adulta diante de situações de risco.

É igualmente importante nomear a emoção por trás do comportamento. Quando um jovem busca risco extremo, o que ele está buscando, muitas vezes, é intensidade, pertencimento, reconhecimento, ou simplesmente uma pausa do vazio. Quando os pais conseguem enxergar isso em vez de enxergar apenas a imprudência, a conversa muda de registro. De confronto para conexão.

Isso não significa negligenciar os limites. Significa que os limites precisam ser apresentados com empatia e fundamentação. "Você não pode fazer isso porque eu disse" é uma instrução sem raiz. "Você não pode fazer isso porque o risco real é este, e aqui está o porquê, e eu entendo o que você está buscando" é uma conversa funcional.

Os pais também precisam revisar seu próprio relacionamento com o risco e com a intensidade. Filhos de adultos que nunca falam sobre medo, que apresentam uma fachada de controle absoluto, tendem a não ter ferramentas para nomear sua própria vulnerabilidade. O adulto que consegue dizer "eu também já quis fazer algo assim, e

aqui está o que eu senti e o que eu pensei" cria um espelho muito mais útil do que o adulto que apenas representa autoridade.

É importante fazer uma distinção que muitas vezes se perde nas discussões sobre segurança: nem todo risco é igual. Há uma diferença fundamental entre o risco calculado, praticado com equipamentos adequados, instrutores certificados, protocolos de segurança rigorosos e o risco negligente, onde vidas dependem de uma corda que pode ou não estar presa.

O risco, em alguma medida, é parte da vida. A superproteção excessiva também tem seus custos: jovens que nunca aprenderam a avaliar e gerenciar riscos tornam-se adultos com baixa tolerância à frustração e pouca capacidade de lidar com a imprevisibilidade da vida. A meta não é eliminar o risco, é aprender a habitá-lo com consciência.

Isso exige que as empresas e profissionais que oferecem atividades de esportes radicais assumam, integralmente, a responsabilidade que lhes cabe. A busca pelo risco é humana; a exploração dessa busca sem os devidos cuidados é criminosa. Nenhuma emoção vale a desatenção, a economia nos equipamentos, o descaso com os protocolos. Nenhuma.

A menina que saltou neste sábado não voltou. E esse vazio, esse buraco no tecido de uma família, de uma cidade, de um país, é irreparável. Não há explicação que feche essa ferida.

Mas há, talvez, uma forma de honrar o que aconteceu: usando a dor como ponto de partida para conversas que deveriam acontecer em todas as casas. Sobre o que nos atrai no limite. Sobre o que o cérebro jovem ainda não sabe calcular. Sobre o que está por baixo da busca pela adrenalina. Sobre quem os nossos filhos estão tentando ser quando saltam.

A psicanálise nos lembra que o ser humano é movido por forças que muitas vezes ele mesmo não compreende. Não para nos absolvermos da responsabilidade, mas para que possamos exercê-la com mais lucidez. Conhecer o abismo não é aprender a temê-lo cegamente. É aprender a respeitá-lo.

E talvez seja essa a tarefa mais urgente dos adultos diante dos jovens de hoje: não afastá-los de toda intensidade, mas ensiná-los que a vida, vivida inteiramente, já é, em si mesma, a maior das aventuras.

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