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Quando a verdade não deveria ter lado

Seis anos depois do início da pandemia de Covid-19, um assunto que parecia ter ficado para trás voltou ao centro do debate. E voltou, mais uma vez, cercado por uma enorme disputa política.

A recente audiência do imunologista americano Anthony Fauci no Senado dos Estados Unidos reacendeu discussões que nunca foram completamente encerradas. Fauci invocou a Quinta Emenda da Constituição americana e se recusou a responder a mais de uma centena de perguntas feitas durante a audiência.

O direito de permanecer em silêncio existe e deve ser respeitado. Mas isso não significa que a sociedade não possa questionar o impacto de uma decisão como essa. Principalmente quando estamos falando de um dos maiores acontecimentos da história recente da humanidade.

O que chama a atenção é que Fauci teria adotado a mesma postura diante de perguntas de diferentes naturezas. Questionamentos considerados mais sérios, relacionados à pandemia, às decisões tomadas durante aquele período e à origem do vírus, ficaram sem respostas. Mas até perguntas aparentemente banais também receberam o silêncio como resposta.

E é justamente aí que começa a reflexão.

Não se trata de dizer que a Covid-19 matou ou não matou. Milhões de pessoas morreram no mundo. Milhares de brasileiros perderam a vida. Pessoas próximas de muitos de nós partiram. Eu mesmo tive Covid e passei alguns dias mal, embora não tenha enfrentado as consequências mais graves que tantas outras pessoas enfrentaram.

Também não se trata, neste artigo, de afirmar que o vírus surgiu de um laboratório ou que passou de um animal para um ser humano. Existem diferentes teorias e investigações sobre a origem da pandemia, e esse debate continua aberto.

O problema é quando uma questão que deveria ser tratada com ciência, investigação e transparência passa a ser tratada como uma disputa política.

Nos últimos anos, vimos discussões sobre vacinas, medicamentos, uso de máscaras, fechamento de empresas e comércios e tantas outras decisões tomadas durante a pandemia. Para alguns, determinadas medidas foram fundamentais. Para outros, houve exageros. Cada pessoa construiu sua própria visão a partir das experiências que viveu e das informações que recebeu.

O que não podemos perder é a capacidade de fazer perguntas.

A origem do vírus, por exemplo, continua sendo um tema de debate. Há avaliações e investigações que consideram diferentes possibilidades, enquanto governos e autoridades apresentam versões distintas. A própria China rejeita a hipótese de que o vírus tenha surgido de um laboratório, enquanto outras análises levantam essa possibilidade.

Mas, se existem perguntas, por que não buscar respostas?

Por que transformar qualquer questionamento em uma disputa entre direita e esquerda?

Esse talvez seja um dos maiores problemas da sociedade atual. Tudo parece precisar de um lado político. Até mesmo questões que deveriam unir as pessoas acabam dividindo.

A Covid-19 deveria ser, antes de qualquer coisa, uma questão de saúde pública. Um acontecimento que matou milhões de pessoas e que precisa ser estudado para que o mundo esteja mais preparado caso algo semelhante volte a acontecer.

Mas, em vez disso, transformamos o assunto em uma guerra ideológica.

Quem questiona uma decisão é rotulado. Quem defende uma medida também é rotulado. Quem pergunta sobre a origem do vírus é acusado de defender uma teoria. Quem acredita em uma determinada versão é imediatamente colocado em um lado político.

E assim, pouco a pouco, deixamos de procurar respostas para começar a defender posições.

Talvez seja por isso que a audiência de Anthony Fauci tenha causado tanta repercussão. Não necessariamente porque ele tinha a obrigação de responder a todas as perguntas, já que existe um direito constitucional ao silêncio, mas porque o silêncio de uma figura tão importante em um momento tão marcante naturalmente alimenta novas dúvidas.

A verdade, porém, não deveria ter partido político.

Não deveria ser de direita ou de esquerda.

Não deveria depender de quem fez a pergunta ou de quem está dando a resposta.

Se o vírus surgiu de um animal, que as evidências demonstrem isso. Se houve um vazamento de laboratório, que as investigações apontem. Se determinadas medidas adotadas durante a pandemia foram necessárias, que os dados comprovem. Se outras decisões foram equivocadas, que também sejam reconhecidas.

A história precisa ser contada com fatos, não com ideologia.

Seis anos depois, ainda temos muitas perguntas sobre a Covid-19. E talvez algumas delas nunca tenham respostas definitivas. Mas isso não significa que devemos abandonar a busca por elas.

O mundo mudou depois da pandemia. A saúde mudou. A ciência mudou. A política mudou. E nós também deveríamos ter aprendido alguma coisa.

Uma delas é que questionar não deveria ser um crime. Investigar não deveria ser uma questão ideológica. E buscar a verdade não deveria significar escolher um lado.

Porque, quando a verdade ganha lado, quem perde não é a esquerda ou a direita.

Quem perde somos todos nós.

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