A morte faz o mundo olhar para quem estava vivo
É triste perceber que, muitas vezes, a sociedade parece descobrir o valor de alguém justamente quando essa pessoa já não está mais aqui.
A morte do cantor Rick, da dupla Rick & Renner, após a queda de uma aeronave na Serra de Santa Catarina, provocou comoção e trouxe novamente aos holofotes um artista que construiu uma trajetória conhecida principalmente nas décadas de 1990 e 2000. Mas, além da tragédia, um dado chama a atenção e provoca uma reflexão incômoda sobre a maneira como consumimos informação, celebridades e histórias nas redes sociais.
Em menos de 12 horas após o anúncio da morte, o perfil de Rick no Instagram, que tinha menos de 900 mil seguidores, ultrapassou 1,4 milhão. Passadas 24 horas, chegou aos 2 milhões. Números que impressionam, mas também entristecem.
Não se trata de questionar quem passou a acompanhar o artista depois da tragédia. A comoção é legítima, assim como a curiosidade em conhecer melhor sua história. O que incomoda é perceber como uma notícia de morte pode despertar, em poucas horas, uma atenção que não existia na mesma proporção antes.
É uma das contradições das redes sociais. A morte transforma pessoas em assunto, resgata músicas, recupera entrevistas e faz vídeos antigos voltarem a circular. De repente, uma história que já existia passa a ocupar milhões de telas.
E esse fenômeno não nasceu com a internet.
A história da arte e da literatura reúne exemplos de nomes que só alcançaram grande projeção ou tiveram suas obras amplamente revisitadas depois de morrer.
Vincent van Gogh é um dos casos mais conhecidos. Hoje considerado uma das figuras mais importantes da arte ocidental, o pintor holandês produziu mais de dois mil trabalhos em pouco mais de uma década. Em vida, porém, teve reconhecimento e sucesso comercial limitados. Sua obra alcançou enorme valorização posteriormente.
Na literatura brasileira, Lima Barreto também teve parte significativa de sua produção redescoberta e valorizada após sua morte. Jornalista e escritor, publicou romances, contos, crônicas e sátiras e hoje ocupa lugar importante na literatura nacional.
Oswald de Andrade, um dos nomes centrais do modernismo brasileiro e participante da Semana de Arte Moderna de 1922, também enfrentou incompreensão em seu tempo. Sua obra passou por um processo posterior de revisão e valorização e hoje é fundamental para a compreensão do movimento modernista.
São histórias diferentes, de épocas e contextos distintos. Mas deixam uma pergunta que atravessa gerações: por que tantas vezes enxergamos melhor o valor de uma história quando ela já terminou?
Isso vale para muito além da arte.
Quantos artistas, jornalistas, escritores, músicos, profissionais e anônimos estão hoje produzindo, trabalhando e construindo suas histórias sem receber a atenção que poderiam ter? Quantas trajetórias passam despercebidas porque não existe uma tragédia capaz de colocá-las no centro das conversas?
E, nesse ciclo, a pessoa que estava viva, trabalhando e produzindo pode se tornar assunto apenas quando já não pode participar da própria história.
Que artistas recebam aplausos enquanto ainda podem ouvi-los. Que profissionais sejam valorizados enquanto continuam trabalhando. Que histórias sejam contadas enquanto seus protagonistas ainda podem contá-las.
A morte de Rick e dos outros profissionais que estavam na aeronave deixa familiares, amigos, colegas e admiradores diante de uma perda irreparável. Para quem acompanha tudo pelas redes, fica também uma reflexão: talvez estejamos olhando demais para quem partiu e de menos para quem ainda está aqui.
Os milhões de seguidores que chegaram depois não mudam o destino. Não devolvem a vida. E não substituem uma palavra de admiração que poderia ter sido dita antes.
No fim, talvez a pergunta mais importante seja simples: por que precisamos esperar alguém partir para demonstrar que sua história importava?
Talvez seja hora de valorizar as pessoas enquanto elas ainda estão aqui.
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