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O palco é seu

Uma cena se repete em muitas vidas sem que ninguém perceba. A pessoa acorda, olha a agenda e encontra nela os compromissos de todo mundo: a reunião do chefe, a consulta da mãe, a festa da escola, o desabafo da amiga, a demanda urgente do cliente. Em algum canto da página, se sobrar espaço, talvez exista um horário reservado para ela mesma. Quase nunca sobra. Vamos vivendo assim, com a sensação de estar sempre ocupados e, curiosamente, sempre em falta. Falta tempo, falta energia, falta uma coisa que a gente não sabe nomear. Corremos atrás de tarefas, de aprovação, de expectativas alheias, e um dia, num intervalo qualquer, no trânsito, na fila do mercado, numa madrugada sem sono, a pergunta chega baixinho: e eu? Onde estou eu em tudo isso? Hoje quero conversar com você sobre essa pergunta. Não sobre o foco das planilhas e das metas de produtividade, mas sobre um foco mais silencioso e mais antigo: o foco no próprio caminho, na própria existência, naquilo que só você pode viver. Para pensar nisso, convido o psiquiatra austríaco Viktor Frankl. Ele passou pelos campos de concentração nazistas, perdeu a família, perdeu os manuscritos, perdeu o nome... foi reduzido a um número. Depois da guerra, escreveu Em busca de sentido, um dos livros mais lidos do século vinte, e criou a logoterapia, uma abordagem que parte de uma ideia simples e radical: o ser humano é movido, antes de tudo, pela vontade de sentido. Frankl observou, no meio do horror, algo que a gente costuma ignorar no conforto. Entre os prisioneiros, aqueles que tinham um motivo para continuar, uma obra por terminar, alguém por reencontrar, uma tarefa que só eles podiam cumprir, resistiam de um modo diferente. Não era garantia de sobrevivência, ele mesmo fazia questão de dizer isso. Mas havia ali uma força interior que o frio, a fome e o medo não conseguiam apagar por completo. Ele gostava de lembrar uma frase de Nietzsche: quem tem um porquê para viver suporta quase qualquer como. Há algo ainda mais impressionante em sua experiência. Frankl percebeu que tudo pode ser tirado de uma pessoa, menos uma última liberdade: a de escolher a atitude diante das circunstâncias. Mesmo quando já não se pode escolher o que acontece, ainda se pode escolher quem a gente decide ser enquanto acontece. Essa pequena brecha de liberdade, segundo ele, é onde a dignidade humana mora. Se isso vale para um campo de concentração, vale também para uma terça-feira de trânsito, e-mails e boletos. A questão é que, na vida comum, raramente alguém nos tira essa liberdade. Muitas vezes nós mesmos a entregamos, de graça, sem perceber. Frankl dedicou boa parte da obra a um fenômeno que chamou de vácuo existencial. É aquela sensação de tédio profundo, de falta de rumo, de que tudo funciona por fora e nada vibra por dentro. Ele notou que esse vazio crescia justamente nas sociedades de abundância, onde as necessidades básicas estavam atendidas e, ainda assim, as pessoas sentiam que faltava o essencial. Falou até de uma tal neurose dominical, a angústia que aparece quando o ritmo frenético da semana para e a gente fica a sós com a própria vida. Talvez você reconheça esse domingo. A casa em silêncio, o celular na mão, a mente procurando alguma coisa para fazer, qualquer coisa que a distraia de uma pergunta incômoda. Muita gente enche a agenda não porque ama o que faz, mas porque teme o que encontraria se parasse. É aqui que o assunto se aproxima do cuidado excessivo com os outros. Estar ocupado com a vida alheia é um excelente esconderijo. Resolver o problema do outro tem um alívio imediato: sentimos que somos úteis, necessários, bons. E enquanto olhamos para fora, não precisamos olhar para dentro, onde talvez morem dúvidas, desejos adiados e sonhos que foram ficando para depois. Uma das ideias mais bonitas de Frankl é a inversão da pergunta. Passamos a vida querendo saber o que esperamos dela: que emprego, que reconhecimento, que conforto. Ele sugere que a pergunta verdadeira é outra. A vida é quem nos pergunta. Cada situação, cada fase, cada encruzilhada é uma pergunta que a existência nos faz, e viver é responder com atos, escolhas e atitudes, de forma pessoal e intransferível. Percebe a consequência disso? Ninguém pode responder por você. Nem a sua mãe, nem o seu parceiro, nem a sua equipe, nem a sua família, por mais amor que exista ali. Da mesma forma, você não pode responder a vida de ninguém. Posso acompanhar, apoiar, estender a mão, mas a missão do outro continua sendo do outro. Cada pessoa é convocada por sua própria vida de um jeito único. Quando a gente assume a vida do outro como se fosse a nossa, comete, sem querer, duas injustiças. Tira do outro a chance de responder por si. E abandona a pergunta que a vida estava fazendo a nós. Precisamos de cuidado aqui, porque o tema é delicado e é fácil cair em erro. Frankl não fala de egoísmo. Ao contrário, para ele o ser humano só se realiza quando se dirige a algo maior do que si mesmo: uma causa, uma obra, uma pessoa amada. Ele chamava isso de autotranscendência. O sentido, dizia, não se encontra olhando apenas para o próprio umbigo. Então cuidar do outro é bonito, é necessário, é uma das formas mais nobres de dar sentido à vida. Quem ama alguém, quem educa, quem acolhe, quem serve, está construindo sentido. O ponto não é cuidar menos. O ponto é perguntar de onde vem o nosso cuidar. Há o cuidado que nasce da plenitude, de uma vida habitada, de alguém que sabe quem é e escolhe doar-se. E há o cuidado que nasce da fuga, da necessidade de aprovação, do medo de não ser amado se disser não, da dificuldade de sustentar o próprio vazio. O primeiro fortalece quem cuida e quem é cuidado. O segundo, com o tempo, esgota, azeda e cobra a conta, às vezes em forma de ressentimento, cansaço crônico ou aquela tristeza sem causa aparente. Ou seja: não se trata de escolher entre você e os outros. Trata-se de perceber que quem não está presente na própria vida chega esvaziado para a vida dos outros. É difícil oferecer sentido a alguém quando se perdeu o próprio. Gosto de imaginar a existência como um teatro. Muita gente passa a vida inteira na coxia. Ajeita o figurino do outro, empurra o cenário, sopra o texto, confere a luz, aplaude do canto da sala. Faz tudo isso com generosidade e competência, e o espetáculo acontece. Só que, ao final, percebe que nunca entrou em cena. A própria peça, aquela que só ela poderia protagonizar, ficou sem ensaio. Dar o palco principal a si mesmo não significa expulsar o elenco. Significa assumir que existe uma cena que é sua, com falas que só você pode dizer. Os outros continuam ali, importantes, queridos, às vezes dividindo o centro com você. Mas ninguém pode ser protagonista de duas vidas ao mesmo tempo. Subir ao palco pede um pouco de coragem, porque o palco expõe. Quem está na coxia não erra em público. Quem entra em cena pode errar a fala, esquecer o texto, ouvir silêncio na plateia. Por isso tantas pessoas preferem o bastidor: ali o risco é menor. Mas o preço do conforto é a vida não vivida, e esse preço costuma aparecer tarde. Frankl dizia que o sentido pode ser encontrado por três caminhos, e eles servem como um mapa para quem quer voltar a si. O primeiro é aquilo que criamos ou realizamos: um trabalho, um projeto, uma obra, uma contribuição. Pergunte-se o que você gostaria de deixar no mundo, mesmo que pequeno, mesmo que só para quem está perto. Pode ser um texto, uma horta, uma empresa, uma família bem cuidada, uma aula bem dada. O segundo é aquilo que vivemos e recebemos: o amor, a beleza, a natureza, a arte, o encontro verdadeiro com alguém. Há sentido em contemplar um pôr do sol com atenção inteira, em ouvir uma música até o fim, em sustentar uma conversa sem olhar o relógio. Quase tudo isso se perde quando vivemos no piloto automático. O terceiro é a atitude diante do sofrimento inevitável. Existem dores que não escolhemos: perdas, doenças, fins. Diante delas, ainda podemos escolher como atravessar. Frankl dizia que o sofrimento, quando não pode ser mudado, desafia a pessoa a mudar a si mesma, e é nesse gesto que a dor pode ganhar sentido, sem nunca precisar ser romantizada. As três perguntas, no fundo, cabem em uma frase: o que eu faço, o que eu amo e como eu encaro o que não posso mudar? Quem consegue responder a elas, ainda que parcialmente, já está de volta ao próprio caminho. A boa notícia é que voltar ao centro da própria vida raramente exige um gesto heroico. Geralmente começa em escolhas miúdas, quase invisíveis. Dizer um não sem pedir desculpas em excesso. Reservar uma hora da semana que seja inegociável. Perguntar-se, antes de aceitar um pedido, se aquilo conversa com o que importa para mim ou se estou apenas fugindo do desconforto de decepcionar alguém. Aceitar ajuda, também, porque quem só dá e nunca recebe acaba se tornando uma ilha cansada. É preciso lembrar ainda que o foco no próprio caminho não é uma linha reta nem um destino que se alcança de uma vez. É uma atenção que a gente precisa renovar todos os dias, como quem volta a cuidar de uma planta. Há dias em que a vida dos outros vai exigir mais de nós, e tudo bem. O que importa é que a gente não perca de vista a bússola. E se a ideia de olhar para dentro assusta um pouco, vale lembrar que o que encontramos lá nem sempre é o monstro que imaginamos. Muitas vezes é só uma criança esperando ser ouvida, um desejo antigo guardado numa gaveta, uma vontade pequena que nunca teve vez. Coisas simples, que mereciam atenção havia tempo. Para fechar, proponho um exercício breve. Hoje, em algum momento do dia, separe quinze minutos. Sem celular, sem tarefa, sem ninguém pedindo nada. Pegue um papel e responda, com sinceridade, a três perguntas. O que a minha vida está me perguntando neste momento? O que eu venho adiando para dar conta das urgências dos outros? E qual seria um pequeno passo, um só, que eu poderia dar esta semana na direção do que realmente importa para mim? Não precisa ser uma resposta grandiosa. Frankl nos ensinou que o sentido não está num lugar distante, esperando ser descoberto por poucos iluminados. Ele aparece no concreto, no cotidiano, na próxima decisão. Aparece quando alguém decide, simplesmente, estar presente na própria história. Sua existência é a única que lhe foi entregue para viver. Não é ensaio, não é rascunho, não é coadjuvante de nenhuma outra. O palco está aceso, a plateia, silenciosa, aguarda. Respire fundo, entre em cena e comece pela sua primeira fala. 

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