No Dia Mundial do Compositor, limeirense fala sobre memórias, Brasil e carreira
O Dia Mundial do Compositor, celebrado hoje, 15 de janeiro, presta homenagem aos profissionais responsáveis por criar, escrever e dar forma às músicas que atravessam culturas, gerações e fronteiras. A data reconhece o trabalho silencioso e persistente de compositores de todos os estilos e reforça a importância da criação musical como expressão artística e patrimônio cultural. Em alusão à data, a Gazeta de Limeira entrevistou o compositor limeirense Rafael Marino Arcaro, um dos nomes brasileiros de maior projeção internacional na música de concerto contemporânea.
Natural do interior de São Paulo e atualmente radicado entre Berlim e Londres, Rafael Marino Arcaro construiu uma trajetória marcada pela valorização das memórias da infância rural e por uma reflexão constante sobre a identidade artística brasileira. Sua linguagem musical alia clareza, contenção e uma seriedade de caráter lúdico, o que resulta em obras sofisticadas e, ao mesmo tempo, acessíveis ao público. Entre seus trabalhos recentes de maior destaque está invention in the language of child, encomendada pela Orquestra Sinfônica de Londres e estreada na temporada 2024/25 no Barbican Centre, além de infanthood of clouds, apresentada em 2023 na Sala São Paulo durante o Festival Internacional de Inverno de Campos do Jordão. Seu Violin Concerto teve estreia em Londres, em 2022, e posteriormente no Theatro Municipal do Rio de Janeiro.
A formação internacional teve papel decisivo em sua consolidação artística. Rafael iniciou os estudos universitários em Filosofia da Comunicação, na FAAP, em São Paulo, antes de ingressar diretamente no mestrado em Composição pela Royal Academy of Music, em Londres. Sobre o período no Reino Unido, o compositor destaca a elegância estética e a recusa de excessos presentes na tradição britânica, além do impacto de conviver com músicos de alto nível técnico e artístico vindos de diversas partes do mundo. Segundo ele, o isolamento cultural vivido como único brasileiro na instituição acabou por fortalecer suas convicções estéticas e ampliar sua percepção sobre a própria cultura de origem.
Ao refletir sobre as influências que marcaram sua formação, Rafael explica que, no início, seguiu um percurso majoritariamente autodidata, apoiado por uma sólida base em teoria musical e pelo acompanhamento da professora Marisa Ramires, em São Paulo. Nesse período, aprofundou-se na obra de compositores como Henry Purcell, Johann Sebastian Bach, Ludwig van Beethoven, Maurice Ravel e Claude Debussy. Com o ingresso no mestrado, passou a estudar com maior profundidade a música moderna e contemporânea, mas aponta como referências centrais nomes como Heitor Villa-Lobos, Olivier Messiaen, György Ligeti e George Benjamin, com quem teve a oportunidade de estudar durante o doutorado no King’s College London entre 2020 e 2025.
Mesmo vivendo fora do Brasil, Limeira ocupa um lugar central em sua identidade como compositor. Rafael relata que, após um primeiro momento de interesse por uma ideia de Brasil frequentemente exportada ao exterior, voltou-se de forma consciente para o Brasil que viveu no interior paulista. Esse universo inclui a moda de viola, a música sertaneja, o batuque de umbigada, a cultura caipira e as experiências da infância na roça, como colher frutas no pé e brincar no mato. Essas memórias passaram a orientar sua criação artística e se transformaram em matéria poética e sonora de suas composições.
Atualmente, Rafael Marino Arcaro desenvolve um projeto na Alemanha com apoio do MusikFonds, dedicado à difusão de obras de compositores sul-americanos do século XX e à apresentação de novos nomes da música latino-americana. Como parte dessa iniciativa, prepara também um ciclo de canções de grande escala a partir da poesia de Manoel de Barros, aprofundando ainda mais o diálogo entre música, memória e identidade brasileira.
Em celebração ao Dia Mundial do Compositor, Rafael deixa uma mensagem direta aos jovens músicos e compositores brasileiros que desejam seguir carreira na música erudita. Para ele, trata-se de uma escolha que exige entrega total da personalidade, do tempo e das emoções, além de enfrentar um mercado competitivo e financeiramente instável. Ainda assim, destaca que a satisfação espiritual proporcionada pela criação musical pode ser profunda e transformadora. O compositor reforça a importância de buscar uma voz artística honesta e enraizada na própria experiência, lembrando a frase de Luís da Câmara Cascudo: “Quem não tiver debaixo dos pés da alma a areia de sua terra não resiste aos atritos da viagem da vida; acaba incolor, inodoro e insípido, parecido com todos” conclui.
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