Especialista alerta para impactos econômicos da escala 5x2 aprovada na Câmara
A Câmara dos Deputados aprovou, em dois
turnos, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que prevê o fim da escala 6x1
e estabelece a adoção da jornada 5x2, com redução gradual da carga horária
semanal de 44 para 40 horas, sem redução salarial. O texto recebeu 461 votos
favoráveis e 19 contrários no segundo turno e agora segue para análise do
Senado Federal. A proposta prevê duas folgas semanais, sendo uma
preferencialmente aos domingos, além de um período de transição de até 14 meses
para adaptação das empresas e trabalhadores às novas regras.
Em entrevista à Gazeta de Limeira, o advogado
trabalhista Claudio Zalaf avaliou os possíveis impactos econômicos, jurídicos e
sociais da mudança. Para ele, o debate representa uma discussão “extremamente
relevante e atual” sobre a modernização das relações de trabalho no Brasil.
Segundo Zalaf, jornadas mais equilibradas
tendem a gerar benefícios importantes para os trabalhadores, como melhora na
qualidade de vida, saúde mental, convivência familiar e redução do desgaste
físico e emocional. “Existe hoje uma tendência internacional de revisão dos
modelos tradicionais de jornada, justamente buscando maior equilíbrio entre
produtividade e bem-estar social”, afirma.
Apesar disso, o especialista alerta que a
implementação da medida exige cautela, principalmente em setores que dependem
fortemente de escalas contínuas, como comércio, supermercados, logística,
hotelaria e serviços. Para ele, o principal ponto de atenção está no prazo de
transição previsto na proposta.
“A alteração da estrutura operacional e dos
custos trabalhistas de um país com as dimensões do Brasil em apenas um ano pode
gerar impactos relevantes para empresas e para o próprio mercado de trabalho”,
diz. Zalaf cita como exemplo o México, que discute a redução gradual da jornada
para 40 horas até 2030. “Esse modelo gradual me parece mais adequado e
compatível com a realidade brasileira”, avalia.
O advogado destaca que, na prática, a redução
da jornada semanal exigirá uma reorganização profunda das escalas de trabalho,
além da possível contratação de novos funcionários para cobrir as folgas
adicionais. Segundo ele, empresas dos setores de comércio e serviços, que
dependem da presença física constante de trabalhadores, poderão enfrentar
aumento de custos operacionais e maior complexidade na gestão das equipes.
“As pequenas e médias empresas tendem a sentir
os impactos de maneira ainda mais intensa, especialmente em segmentos que
operam com margens reduzidas e elevada dependência de mão de obra”, afirma.
Questionado sobre a preparação das empresas
brasileiras para uma eventual transição para jornadas de 40 horas semanais,
Zalaf considera que a maioria ainda não está pronta para uma mudança ampla e
imediata. Ele ressalta que alguns segmentos mais estruturados já trabalham com
modelos flexíveis, mas essa ainda não é a realidade predominante no país.
“Sem redução proporcional dos salários, a
medida tende a elevar automaticamente o custo da hora trabalhada, gerando
aumento significativo dos custos operacionais e trabalhistas”, explica. Para o
especialista, embora exista a percepção de que a redução da jornada possa gerar
mais empregos, esse efeito não é garantido.
“Dependendo do setor econômico, o aumento do
custo fixo da folha pode produzir justamente o efeito contrário, levando
empresas a conter contratações, automatizar processos ou buscar maior
eficiência operacional”, afirma.
Do ponto de vista social e jurídico, Zalaf
reconhece que a adoção da escala 5x2 pode trazer avanços importantes para a
saúde mental e a qualidade de vida dos trabalhadores. Ele cita estudos que
apontam redução de casos de burnout, diminuição do absenteísmo e aumento do
engajamento profissional em jornadas mais equilibradas.
“A adoção da escala 5x2 permite uma desconexão
mais efetiva do ambiente de trabalho, favorecendo descanso adequado, convívio
familiar, lazer, estudos e recuperação física e emocional do trabalhador”,
pontua.
O advogado também destaca que há uma tendência
global de fortalecimento do equilíbrio entre vida pessoal e profissional,
alinhada aos princípios constitucionais da dignidade da pessoa humana e da
valorização social do trabalho.
Apesar dos potenciais benefícios, Zalaf alerta
para o risco de aumento da informalidade caso a mudança avance sem mecanismos
adequados de adaptação econômica. Segundo ele, pequenos empresários podem
enfrentar dificuldades para absorver os novos custos trabalhistas, o que
poderia estimular terceirizações irregulares e modelos de contratação informal.
“Existe risco concreto de crescimento da
informalidade, terceirizações excessivas e aumento dos modelos de pejotização
como forma de redução de custos”, afirma.
Para o especialista, o avanço da proposta
exigirá “sensibilidade do legislador” para construir uma transição progressiva
e equilibrada, com fortalecimento da negociação coletiva e medidas específicas
para determinados setores.
“É fundamental desenhar uma transição muito
mais longa e progressiva, sob pena de empurrar uma fatia expressiva da força de
trabalho para fora do sistema de proteção social”, conclui.
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