Entre vitórias e derrotas, esporte ajuda jovens a desenvolver emoções
Com o início de mais uma edição dos Jogos Escolares, a atenção se volta não apenas para as disputas e os resultados, mas também para os impactos que a experiência esportiva pode provocar emocionalmente em crianças e adolescentes. A ansiedade antes das competições, a pressão por desempenho, a frustração diante de uma derrota e as comparações com outros atletas fazem parte desse universo e precisam ser acompanhadas por pais, professores e treinadores.
Ao mesmo tempo, o esporte pode ser uma importante ferramenta para o desenvolvimento emocional e social dos jovens, contribuindo para o aprendizado sobre persistência, trabalho em equipe, respeito às regras, limites e capacidade de lidar com frustrações.
Para falar sobre o tema, o Fato e Versão ouviu Gisele N. De Assis, psicóloga infantojuvenil (CRP 06/180180), especialista em Análise Aplicada do Comportamento e com cinco anos de atuação clínica pela abordagem da Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC). Gisele realiza psicoterapia individual com crianças e adolescentes, além de grupos terapêuticos e orientação a pais e responsáveis, com atuação voltada ao desenvolvimento emocional, autoestima, habilidades sociais, comportamento e relações familiares.
FATO E VERSÃO
Como a ansiedade antes de uma competição costuma afetar crianças e adolescentes? Quando ela deixa de ser algo natural e passa a ser motivo de preocupação?
A ansiedade, assim como todas as emoções, tem uma função e nem sempre é algo negativo. Quando aparece em uma intensidade esperada, ela pode ajudar a perceber que aquela situação é importante, aumentar a atenção e até favorecer a preparação para a competição. O problema aparece quando essa ansiedade se torna intensa demais e começa a prejudicar o funcionamento.
Alguns sinais de alerta são sintomas físicos muito intensos, como coração acelerado, tremores e suor excessivo, dificuldade importante de concentração, alterações no sono, sofrimento antecipatório ou até prejuízo no desempenho e recusa em participar das atividades. Então, mais do que pensar em eliminar a ansiedade, precisamos ajudar crianças e adolescentes a reconhecê-la e desenvolver estratégias para lidar com ela, regulando-a para uma intensidade saudável.
Até que ponto a cobrança dos pais por bons resultados pode ajudar ou prejudicar o desempenho dos filhos nos esportes?
Muitas vezes, infelizmente, existe uma valorização excessiva do resultado e pouca atenção ao esforço e às pequenas evoluções que acontecem durante o processo. Nesses casos, a criança ou o adolescente pode passar a entender que só teve sucesso quando ganhou, marcou mais pontos ou foi melhor do que os outros.
Existe um cuidado importante aí: o resultado não pode se transformar em uma medida de valor pessoal. Quando uma criança ou adolescente começa a se avaliar apenas pelos resultados, pode deixar de perceber sua própria trajetória, suas conquistas e aquilo que foi capaz de desenvolver.
Isso também interfere na autoestima e na percepção de autoeficácia, que é a crença de que somos capazes de enfrentar desafios e realizar determinadas tarefas. Quando valorizamos apenas o resultado, uma derrota pode transmitir a mensagem de “eu não sou bom o suficiente”. Quando valorizamos também esforço, estratégias e evolução, ajudamos o jovem a construir uma percepção mais realista e saudável sobre suas próprias capacidades.
Como os pais devem agir diante de uma derrota ou de um resultado abaixo do esperado?
Diante de uma derrota ou de um resultado abaixo do esperado, a criança ou o adolescente provavelmente já estará lidando com frustração, decepção e, muitas vezes, autocobrança. Por isso, nem sempre aquele é o momento de apontar o que ela poderia ter feito de diferente para uma possível vitória.
Primeiro, é importante acolher. Ter um adulto que consiga reconhecer aquela frustração e oferecer conforto, ajudando na compreensão sobre o que está sentindo, sem intensificar ainda mais a resposta emocional.
Depois que as emoções estiverem mais reguladas, aí sim pode existir espaço para conversar sobre o que aconteceu, identificar aprendizados e pensar no que pode ser diferente em uma próxima oportunidade.
Quais habilidades emocionais o esporte pode desenvolver em crianças e adolescentes, além da parte física e competitiva?
O esporte pode funcionar como um recurso importantíssimo para o desenvolvimento de diversas habilidades sociais e emocionais, porque coloca crianças e adolescentes diante de situações práticas que também fazem parte de outras áreas da vida.
Nos jogos, eles precisam cooperar, esperar, lidar com expectativas, receber críticas, errar, persistir diante de dificuldades, lidar com frustrações, respeitar regras e trabalhar em equipe. E essas não são habilidades importantes apenas para o esporte: são recursos que podem ser utilizados na escola, nas amizades, na família e, futuramente, em diferentes contextos da vida.
Por isso, a experiência esportiva pode ser muito rica, principalmente quando conseguimos olhar para além do resultado final.
Comparar o desempenho de um filho com o de outros atletas pode servir como motivação ou tende a gerar mais pressão?
Ter um atleta, seja ele famoso ou outro colega de time, como inspiração ou referência é diferente de se comparar constantemente com ele. É saudável observar pessoas mais experientes, reconhecer suas habilidades e até buscar aprender com elas. O problema está quando essa referência se transforma na ideia de que precisamos ser iguais àquela pessoa ou alcançar os mesmos resultados.
Cada pessoa tem características, ritmos, histórias e oportunidades diferentes. Quando fazemos comparações desconsiderando essas diferenças, podemos transformar uma referência que deveria inspirar em uma fonte de desvalorização pessoal.
Crianças e adolescentes precisam aprender a lidar com a frustração desde cedo? Como o esporte pode contribuir nesse processo?
É importante primeiro fazer uma ressalva: frustração faz parte da vida, e crianças e adolescentes já têm contato com ela naturalmente. Não precisamos criar situações de sofrimento ou provocar frustrações para ensiná-los a lidar com elas.
O que podemos fazer é ajudá-los a desenvolver recursos para passar por essas experiências quando elas acontecem. No esporte, isso aparece de forma muito concreta: errar uma jogada, perder uma partida, não conseguir realizar algo como gostaria ou precisar continuar treinando mesmo diante de dificuldades.
Nessas experiências, podemos ensinar que sentir desconforto, errar ou não conseguir algo de primeira não significa incapacidade e nem precisa levar à desistência. A frustração pode ser uma experiência de aprendizagem saudável quando se tem apoio para compreendê-la e elaborar estratégias de enfrentamento.
Como identificar quando a pressão por resultados está deixando de ser saudável e começando a afetar a saúde mental do jovem?
Um sinal importante é quando a criança ou o adolescente começa a atrelar seu valor pessoal ao resultado. Uma derrota deixa de ser “eu perdi uma competição” e passa a significar “eu sou ruim”, “eu não sou capaz” ou “eu decepcionei todo mundo”.
Também precisamos observar quando a preocupação com o resultado começa a gerar sofrimento intenso antes, durante ou depois das competições, quando há alterações importantes no comportamento, agressividade ou quando a busca pela vitória passa a fazer com que o atleta desconsidere valores importantes, como respeito e cooperação.
A competição pode ser intensa e ainda assim saudável. O sinal de alerta aparece quando ganhar deixa de ser um objetivo da atividade e passa a ser a única forma pela qual essa criança ou adolescente consegue se sentir competente ou valorizada.
O que pais, professores e treinadores podem fazer para que os Jogos Escolares sejam uma experiência positiva, independentemente de vitória ou derrota?
Acho que o principal é incentivar a valorização do processo, do esforço e do empenho de cada aluno. É claro que, em uma competição, a vitória é desejada e faz parte da experiência. Mas também sabemos que não é possível que todos ganhem.
Pais, professores e treinadores podem contribuir muito na medida em que transmitem que a vitória é uma conquista dentro de um processo, e não o único objetivo que determina se aquela experiência foi boa ou ruim. Participar, se dedicar, superar dificuldades, aprender com erros, trabalhar em equipe e perceber a própria evolução também são resultados importantes.
Dessa forma, a criança ou adolescente pode comemorar uma vitória sem aprender que precisa vencer para ser valorizada, e pode viver uma derrota sem sentir que ela define quem ela é.
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