COMICIN e Unicamp criam canal para denunciar racismo em Limeira
Representantes do projeto “Ouvidoria COMICIN:
Disque Racismo” estiveram na redação da Gazeta para apresentar a iniciativa,
desenvolvida em parceria entre a Faculdade de Ciências Aplicadas da
Universidade Estadual de Campinas (FCA/Unicamp) e o Conselho Municipal dos
Interesses do Cidadão Negro (COMICIN). A proposta cria um canal permanente para
o registro e o encaminhamento de denúncias de discriminação racial em Limeira,
além de contribuir para o desenvolvimento de políticas públicas de igualdade
racial.
Participaram da visita Ewelyng Teodoro, presidente
do COMICIN, e Matheus Liandro, pesquisador do Laboratório de Estudos do Setor
Público (LESP/Unicamp). Eles explicaram o funcionamento da ferramenta e
destacaram a importância da parceria entre universidade e sociedade no
enfrentamento ao racismo.
O projeto surgiu da aproximação entre conselheiros
do COMICIN e pesquisadores da Unicamp, diante da necessidade de organizar os
relatos recebidos pelo Conselho. Antes da criação da plataforma, muitas
denúncias chegavam por WhatsApp, redes sociais e mensagens particulares, o que
dificultava a sistematização dos casos.
A partir de uma ficha elaborada pelo Conselho,
pesquisadores e estudantes de graduação estruturaram um formulário eletrônico,
disponível no site institucional do COMICIN. A equipe voluntária do Conselho
oferece acolhimento e encaminha os registros aos órgãos competentes, entre eles
o Departamento de Promoção da Igualdade Racial (DEPIR) da Prefeitura de
Limeira, conforme o fluxo de atendimento previsto.
Para Ewelyng Teodoro, a confiança da população é
essencial para ampliar o número de denúncias formalizadas. “Muitas pessoas têm
medo de denunciar o racismo e sofrer algum tipo de represália. O canal existe
justamente para que elas possam relatar o que aconteceu e para que a denúncia
chegue ao COMICIN e ao DEPIR, permitindo uma atuação mais direta sobre o caso”,
afirmou.
Segundo a presidente, a concentração dos registros
também permitirá identificar melhor a dimensão do problema no município. A
expectativa é divulgar o serviço em diferentes espaços, inclusive durante as
atividades do Novembro Negro, com destaque para o Dia Nacional de Zumbi e da
Consciência Negra, em 20 de novembro.
Um dos principais objetivos do projeto é criar um
Painel de Monitoramento de Casos de Racismo, que permitirá organizar e analisar
informações sobre as ocorrências. A ferramenta poderá revelar características
das vítimas, tipos de discriminação e locais ou contextos em que os episódios
acontecem.
Para Matheus Liandro, esses dados são fundamentais
para direcionar ações de prevenção e combate ao racismo. “A ideia é identificar
o perfil das ocorrências, quem são as pessoas atingidas e em quais contextos o
racismo acontece. Também queremos compreender quais regiões e espaços do
município concentram mais casos, para planejar intervenções eficazes e baseadas
em evidências”, explicou.
As informações poderão subsidiar ações educativas,
orientar a atuação dos órgãos municipais e contribuir para a formulação de
políticas públicas mais adequadas às necessidades da população.
Ewelyng também destacou a dificuldade que algumas
pessoas enfrentam para reconhecer situações de racismo. Segundo ela, episódios
de discriminação são, por vezes, tratados como brincadeiras ou bullying, o que
dificulta a formalização das denúncias. “Ter informações organizadas é
importante para demonstrar a realidade que enfrentamos, fundamentar as
cobranças do Conselho e oferecer subsídios para que o DEPIR identifique onde e
como deve atuar”, ressaltou.
A professora doutora Milena Pavan Serafim, da
FCA/Unicamp, coordenou o projeto por meio do LESP. Pesquisadores e estudantes
participaram voluntariamente da estruturação da plataforma, que integra as
atividades de extensão da universidade.
Para Matheus Liandro, a iniciativa também
representa um avanço na aproximação entre a universidade e as demandas locais.
Ele ressaltou a importância de garantir continuidade aos projetos de extensão
por meio de apoio institucional, participação acadêmica e recursos financeiros.
O pesquisador citou ainda novas parcerias em
construção no município, como a iniciativa com a Escola Legislativa da Câmara
Municipal de Limeira. A intenção é ampliar a atuação da universidade em
projetos que contribuam para a gestão pública e para a solução de problemas da
comunidade.
Conhecimento acadêmico a serviço da população
Ewelyng Teodoro destacou que a parceria demonstra
como a universidade pública pode contribuir diretamente para a transformação
social. “A universidade não serve apenas para formar profissionais. Ela também
faz parte da sociedade e precisa caminhar junto com ela. Quando a Unicamp
participa de um projeto como esse, ajuda a transformar a realidade em dados,
contribui para pensar políticas públicas e devolve à população, de forma
concreta, o investimento público feito na educação”, afirmou.
Como denunciar
Pessoas que sofrerem ou presenciarem atos de
racismo em Limeira poderão registrar os casos pelo formulário eletrônico
disponível no site institucional do COMICIN. Em situações excepcionais, também
haverá acolhimento presencial pela equipe voluntária.
O projeto conta ainda com uma cartilha informativa
que explica como preencher o formulário e quais são as etapas do atendimento. A
expectativa é que a plataforma se consolide como um canal permanente de escuta
e acolhimento, além de fornecer informações que contribuam para o enfrentamento
ao racismo e para o aprimoramento das políticas de igualdade racial no
município.
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