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Crescer é complexo: Psicóloga fala sobre os desafios da adolescência

Tradicionalmente, a adolescência é compreendida como uma transição entre a infância e a vida adulta, sendo que essa passagem entre as fases é vista como uma mudança confusa e caótica. No entanto, é importante pensarmos que, na verdade, trata-se de uma fase muito complexa e única, principalmente por ser caracterizada por uma mentalidade própria e por um desenvolvimento psíquico muito rico.

Para aprofundar o tema, a Gazeta de Limeira entrevistou a psicóloga Camila Carron Lopes, formada pela Fundação Hermínio Ometto de Araras (FHO Uniararas) e com formação clínica pelo IPSH-RN, que atua como psicóloga social na ACESAC e no Posto de Saúde do Jardim Progresso. Na clínica, atende crianças a partir de 6 anos, adolescentes, adultos e idosos no Espaço Ser. Voluntariamente, trabalha com o basquete feminino de Cordeirópolis (sub-13, sub-15 e sub-17) e realiza palestras temáticas em espaços públicos e privados.

 

1. Quais são as principais transformações físicas que ocorrem entre a infância e a adolescência, e como elas podem impactar o comportamento das crianças?
Pensando nas mudanças físicas e hormonais, podemos citar alterações características do início da puberdade, tais como: inchaço abdominal, crescimento do órgão genital e dos seios, aumento da produção de pelos, odores fortes, cansaço, alterações na pele, gordura abdominal, indisposição e maior necessidade de sono.

Levando em consideração que a grande maioria das mudanças na vida gera conflito e desconforto, com esse período de transição não seria diferente. Diante dessa nova fase, é comum que haja confusão por parte dos jovens, principalmente por não conseguirem nomear ou compreender alguma mudança significativa no corpo, assim como apresentarem dificuldade em manejar seus sentimentos diante de tantas alterações.

 

2. Como o desenvolvimento cognitivo se manifesta durante a transição da infância para a adolescência? Quais habilidades cognitivas começam a se destacar nessa fase?
Considerando as mudanças neurológicas, observa-se o desenvolvimento do pensamento hipotético e da moral autônoma. O primeiro é responsável pelo desempenho cognitivo e pelo raciocínio lógico, e o segundo, pelo desenvolvimento do julgamento e da criticidade. Portanto, será um período de grandes questionamentos e de redefinição da própria identidade, frequentemente interpretado como rebeldia. No entanto, trata-se apenas de um momento em que os jovens são capazes de analisar com mais clareza e precisão as incoerências do dia a dia.

 

3. Quais são os principais desafios emocionais que crianças e adolescentes enfrentam à medida que crescem, e como isso pode influenciar suas relações sociais?
Nesse período, observa-se uma mudança drástica nos sentimentos e uma manifestação intensa dos mesmos, como, por exemplo: tristeza sem motivo aparente, maior irritabilidade, sensação de desesperança e confusão, aumento da intolerância e necessidade de lidar com sentimentos adversos (ciúmes, inveja, raiva etc.).

Tais sentimentos são vividos de maneira intensa pelos jovens, e há dificuldade em lidar com as instabilidades de humor que ocorrem em curto período de tempo, tanto para os adolescentes quanto para os adultos do convívio. Assim, é comum que haja um aumento significativo de conflitos com os genitores que antes não existiam, bem como uma aproximação e identificação maior entre os pares.

 

4. De que forma a família, a escola e o grupo de amigos podem interferir no desenvolvimento emocional e cognitivo durante essa fase?
Levando em consideração que é um período de mudanças significativas tanto para o adolescente quanto para os adultos ao seu redor, esses grupos podem influenciar positiva ou negativamente. Por isso, é ideal que haja sempre diálogo sobre dúvidas, questionamentos e sentimentos.

Na família, é importante que exista um adulto mediador para orientar o adolescente em relação às alterações físicas, emocionais e hormonais, além de oferecer um espaço livre de julgamentos e repleto de acolhimento nos dias difíceis. Na escola, considerando o aspecto socioeducativo, é possível promover atividades que garantam aprendizagem, socialização e mediação de conflitos entre os pares. Por fim, o grupo de amigos pode servir como grande suporte emocional, principalmente porque estão passando pela mesma fase juntos.

 

5. Como o processo de construção da identidade e da autoestima se desenvolve na adolescência, e quais sinais indicam que a criança ou adolescente pode precisar de apoio psicológico?
A identidade e a autoestima são formadas desde a infância por meio dos níveis de socialização (família, escola, amigos, redes sociais, trabalho etc.). Através das experiências vividas nesses contextos, internalizamos conceitos e nos construímos enquanto seres humanos.

Na adolescência, como período multifatorial, também precisamos considerar as mudanças sociais características dessa fase, como maior autonomia, mudança na autopercepção e acesso às redes sociais. Nesse cenário, é comum que os jovens passem a se comparar e a vivenciar experiências diferentes, tudo em busca da consolidação da identidade e da autoestima. Portanto, se na infância eu imito, na adolescência eu me diferencio.

Será um sinal de alerta quando o adolescente apresentar comportamentos de autolesão como estratégia de manejo dos sentimentos adversos, possíveis transtornos alimentares (compulsão, bulimia ou anorexia), assim como quadros de ansiedade e/ou depressão que impeçam a realização das atividades da vida diária. Por isso, é sempre importante fortalecer o diálogo entre jovens e adultos e oferecer um espaço de acolhimento livre de julgamentos.

 

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