Mais de 11 milhões vivem com transtorno por álcool no país
O consumo de álcool e outras drogas no Brasil continua sendo um desafio de saúde pública e social, com impactos que vão muito além de uma escolha individual. Relatórios de 2025, baseados no 3º Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad), indicam que mais de 11,7 milhões de brasileiros vivem com transtorno por uso de álcool. O levantamento também mostra que a experimentação começa cedo: cerca de 56% da população relatou ter consumido bebidas alcoólicas antes dos 18 anos, ainda na adolescência.
Entre os jovens, o uso de substâncias ilícitas também é motivo de preocupação. Dados da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que aproximadamente 7,4% já fizeram uso desse tipo de substância, reforçando que o fenômeno atravessa diferentes faixas etárias e contextos sociais.
Para especialistas, esses números evidenciam não apenas a dimensão do problema, mas também a necessidade de olhar para além da substância. Muitas vezes, o consumo está associado a sofrimento emocional profundo, vulnerabilidade e tentativas de lidar com dores internas que nem sempre são visíveis.
A professora de Psicologia Mariana Ramos alerta que reduzir o tema à falta de força de vontade é um erro comum e perigoso. "Muitas vezes, a substância aparece como uma forma de anestesia emocional temporária", afirma. Segundo ela, o uso pode surgir como tentativa de aliviar ansiedade, solidão, exaustão ou experiências traumáticas, especialmente em cenários nos quais faltam suporte e rede de apoio. Mariana também destaca que fatores culturais e sociais exercem forte influência. "O álcool, em alguns contextos, vira um mediador para lidar com inseguranças e pressões sociais, como se fosse necessário para relaxar ou pertencer", pontua.
O professor de Psiquiatria Luís Carlos Bochenek reforça que a dependência deve ser compreendida como um transtorno de saúde mental multifatorial. "A dependência química não é fraqueza. Quanto mais cedo o cuidado começa, maiores são as chances de recuperação e de reconstrução de vínculos", destaca.
Bochenek explica que é comum que álcool e drogas sejam usados como tentativa de aliviar sintomas psíquicos difíceis até de nomear. "A substância aparece como um alívio imediato, mas pode abrir caminho para um quadro de dependência", alerta.
Para os especialistas, o enfrentamento mais eficaz passa por uma abordagem humana e ampla, que não foque apenas na substância, mas também no que está por trás dela: emoções, história de vida, ambiente social e acesso ao cuidado
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