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Saúde começa pela boca: prevenção evita cáries e protege todo o organismo, alerta dentista

Cáries e doenças periodontais continuam entre os problemas de saúde mais frequentes no Brasil e representam um desafio para a saúde pública. Embora sejam, na maioria dos casos, preveníveis, essas doenças ainda atingem milhões de brasileiros e podem provocar dor, perda dentária, dificuldades na alimentação, prejuízos à autoestima e impactos significativos na qualidade de vida. Além disso, estudos apontam que a saúde bucal está diretamente relacionada à saúde geral do organismo, reforçando a importância dos cuidados preventivos e do acompanhamento odontológico regular.

Para esclarecer as principais dúvidas sobre o tema, a Gazeta de Limeira entrevistou o cirurgião-dentista Dr. Ricardo Schiavon G. da Silva, formado pela Faculdade de Odontologia da Universidade de São Paulo (USP). Atuando em Limeira nas áreas de prevenção e tratamento odontológico, o especialista explica os fatores que favorecem o surgimento das cáries e das doenças gengivais, alerta para os riscos de adiar o atendimento odontológico, destaca a importância da prevenção e comenta a relação entre a saúde bucal e doenças sistêmicas, como diabetes, infecções respiratórias e problemas cardiovasculares.

 

1. Cáries e doenças da gengiva estão entre os problemas de saúde mais comuns no Brasil. Quais são os principais fatores que contribuem para a alta incidência dessas doenças na população?

A alta incidência de cáries e doenças periodontais é resultado da combinação de fatores biológicos, comportamentais e sociais. Do ponto de vista biológico, a cárie só se desenvolve quando quatro fatores estão presentes ao mesmo tempo: o dente, o biofilme (placa bacteriana), a ingestão frequente de alimentos ricos em açúcar e o tempo. As bactérias presentes no biofilme, especialmente o Streptococcus mutans, utilizam o açúcar para produzir ácidos que desmineralizam o esmalte dentário. Com o passar do tempo, essa desmineralização provoca pequenas porosidades que evoluem para cavidades. É importante destacar que a cárie não é apenas o “buraco” no dente, mas todo esse processo de desenvolvimento da doença. Nas doenças periodontais ocorre algo semelhante: o biofilme acumulado próximo à gengiva provoca inflamação, inicialmente caracterizada como gengivite, que pode evoluir para periodontite se não houver tratamento.

Os hábitos da população também influenciam diretamente esse quadro. A escovação inadequada, a falta do uso do fio dental, o consumo frequente de alimentos açucarados, o tabagismo, o diabetes, a redução do fluxo salivar e até alguns medicamentos, principalmente os utilizados no tratamento da ansiedade e da depressão, aumentam o risco de desenvolver cáries e doenças gengivais. A saliva exerce um papel importante na proteção da boca, e sua diminuição favorece a ação das bactérias. O biofilme é o principal responsável por essas doenças, mas ele não atua sozinho. O problema surge justamente da associação entre fatores biológicos e comportamentais, tornando a prevenção indispensável.

O aspecto social também tem grande impacto. Pessoas que realizam consultas periódicas e limpezas preventivas conseguem controlar melhor o biofilme e evitar a formação do tártaro, que favorece o acúmulo de bactérias mais agressivas. Além disso, políticas públicas, como a fluoretação da água de abastecimento e o uso de cremes dentais com flúor, contribuíram significativamente para a redução da incidência de cáries nas últimas décadas. Em municípios como Limeira, onde a água é fluoretada, essa medida representa um importante aliado da prevenção e demonstra que o controle das doenças bucais depende não apenas dos cuidados individuais, mas também do acesso à informação e às ações de saúde pública.

. Muitas pessoas procuram atendimento odontológico apenas quando sentem dor. Quais são os riscos desse comportamento e qual a importância da prevenção e das consultas regulares?

Quando o paciente procura o dentista apenas porque está sentindo dor, normalmente a doença já se encontra em estágio avançado. No caso da cárie, por exemplo, enquanto o problema está restrito ao esmalte, geralmente não há dor. Quando ela atinge a dentina ou a polpa do dente, o quadro costuma exigir tratamentos mais complexos, como restaurações extensas ou tratamento de canal. O mesmo ocorre com as doenças periodontais: o sangramento da gengiva é um sinal inicial, mas, quando o paciente demora para buscar atendimento, pode ocorrer perda óssea, mobilidade dentária e até perda do dente.

A prevenção é sempre a melhor alternativa. Identificar uma cárie ainda no início ou tratar uma gengivite antes que evolua para periodontite torna o tratamento mais simples, menos invasivo e com melhores resultados. As consultas periódicas permitem controlar o acúmulo de placa bacteriana e de tártaro, além de identificar precocemente alterações que muitas vezes passam despercebidas pelo paciente.

Na odontologia, o objetivo principal é prevenir as doenças, e não apenas tratá-las quando já apresentam sintomas. Embora grande parte dos atendimentos ainda envolva casos mais graves, como fraturas dentárias, cáries profundas e doenças periodontais avançadas, o ideal é que o paciente mantenha acompanhamento regular. Dessa forma, é possível preservar a saúde bucal, evitar procedimentos mais complexos e garantir melhor qualidade de vida.

 

. Além dos impactos na saúde bucal, de que forma as cáries e as doenças gengivais podem afetar a alimentação, a autoestima e a qualidade de vida das pessoas em diferentes faixas etárias?

As cáries e as doenças gengivais vão muito além dos problemas nos dentes. Elas podem comprometer a alimentação, a fala, a autoestima e a qualidade de vida. Dor, sensibilidade e perda dentária dificultam a mastigação e fazem com que muitas pessoas deixem de consumir determinados alimentos, prejudicando a nutrição. Além disso, o sangramento da gengiva, o mau hálito e alterações estéticas podem gerar insegurança, afetando o convívio social e a confiança para sorrir. No Brasil, a saúde bucal está diretamente associada à autoestima e à imagem pessoal.

Os impactos também variam conforme a idade. Nas crianças, cáries e doenças gengivais podem prejudicar a alimentação, o sono, o rendimento escolar e o desenvolvimento. Entre os adultos, problemas bucais interferem na vida profissional e nos relacionamentos, principalmente para quem trabalha com atendimento ao público. Já entre os idosos, a perda dentária compromete a mastigação, dificulta uma alimentação adequada e pode agravar problemas de saúde já existentes, reduzindo a qualidade de vida.

Por isso, manter a saúde bucal significa cuidar da saúde como um todo. A prevenção e o acompanhamento odontológico regular ajudam a preservar a função dos dentes, a estética do sorriso e o bem-estar em todas as fases da vida, contribuindo para uma alimentação adequada, melhores relações sociais e mais qualidade de vida.

4. Estudos apontam uma relação entre doenças bucais e problemas como diabetes, doenças cardiovasculares e infecções respiratórias. Como essa conexão ocorre e por que a saúde bucal deve ser vista como parte fundamental da saúde integral do paciente?

Existe, sim, uma relação entre a saúde bucal e a saúde do organismo, porque a boca faz parte do corpo e pode influenciar outras condições de saúde. O exemplo mais bem estabelecido é o diabetes. Essa é uma relação de mão dupla: pessoas com diabetes têm maior risco de desenvolver doenças periodontais e, ao mesmo tempo, infecções na gengiva podem dificultar o controle da glicemia. Já em pacientes hospitalizados, principalmente idosos, as bactérias presentes na boca podem ser aspiradas para os pulmões e favorecer o desenvolvimento de infecções respiratórias. Em relação às doenças cardiovasculares, porém, ainda não existem evidências científicas que comprovem uma relação direta entre problemas bucais e condições como infarto ou AVC.

As doenças bucais provocam processos inflamatórios constantes e mobilizam o sistema imunológico. Quando uma pessoa apresenta uma infecção persistente na gengiva ou outro problema bucal sem tratamento, o organismo permanece combatendo aquela inflamação. Em comparação com alguém que mantém a boca saudável, parte da resposta imunológica está continuamente direcionada para controlar esse processo inflamatório. Por isso, manter a saúde bucal também contribui para o equilíbrio da saúde geral.

Existem ainda situações específicas, como a endocardite bacteriana, em que bactérias da boca podem alcançar a corrente sanguínea durante um procedimento odontológico e atingir o coração de pacientes predispostos. Nesses casos, o dentista deve adotar cuidados especiais. De forma geral, porém, preservar a saúde bucal significa reduzir focos de inflamação e infecção, favorecendo uma melhor condição sistêmica. A boca não deve ser vista de forma isolada, mas como parte fundamental da saúde integral do paciente.

 

 

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