Doação de órgãos transforma despedida em esperança
Setembro Verde é o mês que busca conscientizar a população
sobre a importância da doação de órgãos e tecidos. Para a família de Antônio
Ferreira dos Reis, a decisão de doar transformou um momento de dor em uma
história de esperança. Após a morte, três órgãos foram destinados a pacientes
que aguardavam por um transplante.
Em meio a campanhas de conscientização, histórias reais
mostram que a decisão de dizer "sim" à doação transcende a dor da
perda e é capaz de reescrever destinos. Uma dessas histórias é a de Antônio,
que faleceu aos 54 anos em 2024 e deixou um legado de generosidade ao salvar a
vida de três pessoas. Ele faleceu no dia 27 de setembro, data em que se celebra
o Dia Nacional do Doador de Órgãos.
Por trás da partida, há uma trajetória familiar marcada por
desafios e pela difícil convivência com a dependência química. No entanto, o
desfecho de sua vida não foi definido pelo sofrimento, mas sim pela esperança
que ele proporcionou a três famílias que aguardavam por um recomeço.
Em entrevista à Gazeta, a sobrinha de Antônio, Fabiana
Marques Rocha, relembrou a história do tio e compartilhou o impacto emocional
da decisão da família em autorizar a captação dos órgãos. Sua trajetória
começou a ser trilhada por caminhos difíceis ainda na juventude, quando se
tornou refém do uso de drogas. "O meu tio Antônio era o mais novo dos
irmãos. Ele acabou entrando no mundo das drogas e viveu a vida dessa maneira.
Acabou ficando mais tempo na rua, queria viver daquela forma dele, mas sempre
achou um jeito de se sustentar, trabalhando", conta a sobrinha Fabiana.
Apesar de a família tentar intervenções ao longo dos anos,
a dependência se impôs. "Ele foi internado umas três vezes, mas não
conseguia ficar naquela vida regrada. Faltava estrutura interna para lutar
contra aquilo. Ficava o sentimento de que a gente não conseguia acolher da
forma ideal por conta do vício, mas não foi por falta de tentativa. Ele foi um
refém da droga a vida inteira", desabafa.
Fabiana relata também o preconceito e a invisibilidade que
marcaram a rotina do tio na sociedade. "Ele era uma pessoa que não fazia
maldade para os outros, mas era ignorado pela sociedade. Ele não viveu a vida
que poderia ter vivido ao lado da família. Por conta das defesas dele, ficava
meio deslocado, mesmo quando a gente o chamava para almoços e reuniões."
Após sofrer uma queda e dar entrada no hospital, Antônio
passou por um rigoroso acompanhamento médico. O diagnóstico de morte encefálica
seguiu todos os trâmites exigidos pela legislação brasileira, garantindo a
total segurança do processo. "Foi tudo feito dentro do protocolo do
hospital. Ele ficou internado, passou pelos testes de três médicos diferentes
para que o laudo final saísse de forma segura", explica Fabiana,
desmistificando os receios que muitas pessoas ainda alimentam sobre o processo
de doação. "Tem muita gente que ainda tem receio, acha que a doação
acelera a morte da pessoa, mas não é assim. Há todo um procedimento rigoroso.
Quando saiu o laudo de que ele estava apto e a equipe nos notificou sobre a
possibilidade de doar, a família toda se emocionou. Não tivemos nenhum tipo de
receio. Todos concordaram na hora."
Para a família, a oportunidade de doar os órgãos de Antônio
trouxe uma profunda ressignificação sobre o valor da vida e o papel da
solidariedade. Três órgãos foram captados e destinados a pacientes na fila de
espera do Sistema Nacional de Transplantes. "É uma coisa que deixa a gente
tão emocionados, porque sabendo de tudo o que ele passou, saber que ele acabou
salvando vidas é emocionante. A gente fica pensando: às vezes você vê uma
pessoa marginalizada, mas por dentro ela é saudável e pode gerar vida",
reflete a sobrinha.
Fabiana conclui destacando a mensagem que o tio deixa para
a sociedade neste Setembro Verde: "Ele não teve a oportunidade de viver a
vida plenamente por causa do vício, mas conseguiu proporcionar isso para três
pessoas. É uma reflexão muito forte que fica para nós. Na morte dele, vem essa
lição: olha como a vida é. O meu tio, que por tantas vezes foi invisível para o
mundo, hoje vive em outras três pessoas."
No Brasil, a doação de órgãos pós-morte só acontece com a
autorização expressa dos familiares de até 2º grau. Não é necessário deixar
documentos em cartório; a medida mais eficaz é conversar abertamente com os
parentes em vida e manifestar a intenção de ser um doador. Um único doador pode
beneficiar mais de oito pessoas com a doação de órgãos e tecidos como córneas,
pele e ossos.
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