Quem está vivo pode doar órgãos? Especialista esclarece as principais dúvidas
É
preciso ter algum documento para ser doador? A família pode impedir a doação?
Quem está vivo também pode doar órgãos? Essas são algumas das dúvidas que ainda
cercam um tema capaz de transformar vidas. Especialista explica os principais
pontos sobre doação e transplante de órgãos.
O Brasil é referência mundial
quando o assunto é transplante de órgãos. O país possui um dos maiores sistemas
públicos de transplantes do mundo, com mais de 90% dos procedimentos
financiados pelo Sistema Único de Saúde (SUS), de acordo com informações do
Ministério da Saúde. O Brasil também ocupa a segunda posição entre os países
que mais realizam transplantes, ficando atrás apenas dos Estados Unidos.
Apesar dos avanços, o número de
doadores ainda pode aumentar. A falta de informação e, principalmente, a
ausência de uma conversa prévia entre potenciais doadores e seus familiares
estão entre os fatores que podem dificultar a autorização para a retirada dos
órgãos.
Em entrevista publicada em seu
site, o médico oncologista, cientista, escritor e divulgador científico
brasileiro Drauzio
Varella esclarece algumas das principais dúvidas sobre a doação
e o transplante de órgãos.
É preciso ter algum
documento ou registro para ser doador de órgãos?
Não. O mais importante é deixar
claro para a família o seu desejo de ser doador. No Brasil, o transplante de
órgãos só pode ser realizado após a autorização familiar. Não há nenhuma lei
que garanta que a vontade do doador seja feita, isto é, se uma pessoa manifesta
seu desejo de doar e, após sua morte, a família nega, seus órgãos não serão
doados. Entretanto, se o assunto é debatido e a família tem conhecimento desse
desejo, frequentemente ela autoriza a doação.
Quantas pessoas
podem ser beneficiadas por um doador de órgãos?
Um único doador que teve morte
encefálica pode ajudar até dez pessoas que estão na fila de espera do
transplante. É possível doar órgãos, como coração, fígado, rins, pâncreas,
pulmões e pele, e tecidos, como ossos, córneas e medula óssea. São realizados
diversos exames para verificar a compatibilidade entre doador e receptor, a fim
de aumentar a chance de cirurgias bem-sucedidas. A posição na lista de espera é
definida a partir de critérios como urgência do procedimento e tempo de espera.
O que é morte
encefálica?
A morte encefálica consiste na
perda total e irreversível das funções cerebrais. Pela legislação, a doação de
órgãos só pode ser realizada quando ela é confirmada. Algumas pessoas confundem
morte encefálica com coma, mas essas são condições completamente diferentes. O
coma é reversível; ou seja, a pessoa ainda pode acordar. Um paciente com morte
encefálica não está em coma e não tem possibilidade de acordar novamente. O
diagnóstico de morte encefálica é confiável e segue critérios específicos
regulamentados pelo Conselho Federal de Medicina (CFM).
A doação de
órgãos pode deixar o corpo do doador deformado?
Não, a retirada de órgãos para
doação é feita por uma cirurgia consolidada há muitos anos na Medicina e não
causa nenhuma deformidade. Após o procedimento, a família poderá velar seu ente
querido ou proceder com seus rituais normalmente.
É possível doar
órgãos em vida?
Sim. Existem dois tipos de
doadores, vivo e falecido. O doador vivo pode doar um dos rins, parte da medula
óssea, parte do fígado ou do pulmão. Qualquer pessoa que concorde com a doação,
desde que o procedimento não seja prejudicial à sua saúde, pode doar. Nesses
casos, é preciso ter sangue compatível com o receptor e passar por avaliação
médica.
Familiares de até quarto grau
podem ser doadores dentro de sua própria família. Para doar para outras
pessoas, é necessário autorização judicial. Já o doador falecido é aquele que
teve morte encefálica (normalmente são pacientes vítimas de problemas como acidente
vascular cerebral AVC ou traumatismo craniano, causas de morte que na maioria
das vezes mantêm os órgãos em condições de serem doados).
Quais são os
riscos para o doador vivo?
O doador está sujeito aos riscos
normais de se submeter a uma cirurgia com anestesia geral, mas antes do
procedimento são feitos exames a fim de minimizar os riscos. Veja os detalhes
de doação e transplante para os principais órgãos:
Rim: A função renal pode ser realizada
adequadamente por um único rim, sem que isso cause prejuízos à saúde do doador.
Fígado: Apesar de uma boa parte do fígado ser
retirada, esse é um órgão que tem enorme capacidade de regeneração, o que
possibilita que ele retome seu tamanho original após a cirurgia.
Pulmão: Esse transplante normalmente é feito de um
doador adulto para um receptor criança, de forma que apenas um pequeno pedaço
do pulmão é retirado e o doador consegue viver normalmente, exceto em casos
excepcionais (por exemplo, se tiver uma profissão que exija sobremaneira esse
órgão, como um nadador profissional).
Medula óssea: Existem dois métodos para doação de
medula e apenas um deles é feito em centro cirúrgico, com anestesia geral. Os
riscos são mínimos e a medula se recupera em poucas semanas.
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