Cirurgião plástico e ginecologista falam do que o Outubro Rosa pouco discute: a reconstrução
Todo ano, a campanha do Outubro Rosa se concentra no
diagnóstico precoce. Falta espaço para os dois extremos dessa história: o que a
mulher pode fazer antes de adoecer e o que acontece com sua imagem corporal e
sua autoestima depois de vencer o tratamento.
O Dr. Reinaldo Maximo, ginecologista, lembra que a
prevenção também começa pelo autoconhecimento. “Ninguém melhor do que você
mesma, mulher, para identificar e perceber as mudanças do seu próprio corpo.” O
ideal é que a mulher mantenha consultas ginecológicas regulares, geralmente anuais,
para avaliar sua saúde, atualizar os exames indicados e identificar possíveis
alterações. A periodicidade dos exames preventivos deve ser definida de acordo
com a idade, o histórico e as necessidades de cada paciente.
A mamografia é o principal exame utilizado no
rastreamento do câncer de mama. A Sociedade Brasileira de Mastologia, a
FEBRASGO (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia) e
o Colégio Brasileiro de Radiologia recomendam o rastreamento anual para
mulheres de 40 a 74 anos. Durante a consulta, também é importante investigar o
histórico familiar de câncer, segundo o INCA, cerca de 5% a 10% dos casos de
câncer de mama estão relacionados a fatores hereditários. Quando há histórico
familiar, a necessidade de investigação genética e a idade para iniciar o
rastreamento podem variar conforme o grau de parentesco, a idade em que o
familiar recebeu o diagnóstico e outros fatores individuais.
Existem também fatores de risco que podem ser
modificados, e isso faz diferença. O excesso de peso, sedentarismo, consumo de
bebidas alcoólicas e tabagismo merecem atenção, especialmente após a menopausa.
Por isso, é importante praticar atividade física regularmente, como caminhada,
além de incluir exercícios de força, como a musculação. Manter uma alimentação
equilibrada, priorizar frutas, verduras e legumes, reduzir o consumo de
alimentos ultraprocessados, evitar bebidas alcoólicas e não fumar são medidas
que contribuem para a saúde. A amamentação também é considerada um fator
protetor contra o câncer de mama.
“A mulher precisa conhecer as próprias mamas e procurar
atendimento médico diante de qualquer alteração, como nódulos, secreção pelo
mamilo ou mudanças na pele, sem esperar a próxima consulta de rotina. Cuidar de
si não é luxo. É uma forma de valorizar a própria saúde e de aumentar as
chances de identificar a doença precocemente”, orienta o ginecologista.
A
HISTÓRIA DE CARMELINDA
Carmelinda Rodrigues Messias, 68 anos, trabalhava na área
da saúde e tinha o hábito de adiar a própria consulta. "A gente que
trabalha na saúde mexe com muita coisa e esquece de si. Eu mesma não ia ao
médico." Ao sentir um nódulo na mama esquerda, o medo a paralisou.
"Senti um carocinho e fiquei com medo de ir ao médico. Ele foi aumentando
e eu não falava para ninguém. Fui negligente no início, poderia ter logo no
começo já procurado o médico." Foi uma colega do centro cirúrgico que
marcou a consulta. Com o tumor já grande, o tratamento começou com seis ciclos
de quimioterapia, antes da cirurgia e da radioterapia.
O diagnóstico revelou também uma condição de saúde que
ela desconhecia. "Na minha cabeça, eu era uma pessoa normal, que não
sentia nada. Foi durante os exames do tratamento que descobri pressão alta,
colesterol alto, triglicerídeos altos." Na época, Carmelinda pesava 110
quilos. Depois do diagnóstico, a profissional de saúde mudou a alimentação e,
hoje, perdeu 50 quilos.
Após o tratamento, Carmelinda passou pela cirurgia de
retirada parcial da mama, mas, logo em seguida, escolheu fazer cirurgias plásticas
reparadoras com o Dr. Pedro Morales. "Antes eu não tinha autoestima, nem
olhava no espelho. Hoje eu escolho a roupa que eu quero."
“O câncer, por si
só, já é algo que afeta não só a condição física, mas também o mental. Ninguém
está preparado para enfrentar o processo. Muitas mulheres, após a retirada da
mama, ficam com marcas profundas, no corpo e na mente. A cirurgia restauradora
é para recuperar esse poder feminino e ser mais um elemento vitorioso após
vencer o câncer”, comenta o médico cirurgião plástico Dr. Pedro Morales.
O acesso a esse cuidado tem avançado. Dr. Morales aponta
uma alta demanda e uma procura cada vez mais frequente de mulheres por esse
tipo de procedimento. Na rede pública, em 2025, o SUS realizou 19,4 mil
cirurgias de reconstrução mamária, mais que as 18,3 mil mastectomias realizadas
no mesmo ano, pela primeira vez na série. Em 2022, foram 12,3 mil. O Ministério
da Saúde também ampliou o direito à cirurgia reparadora, antes restrito às
sequelas do tratamento do câncer, para todas as situações de mutilação mamária,
total ou parcial.
Estudos brasileiros e internacionais associam a
reconstrução a uma melhor imagem corporal e a menos sintomas depressivos em
comparação com a mastectomia isolada. Os resultados variam conforme a metodologia,
e a escolha deve ser feita com a equipe médica, respeitando o desejo de cada
mulher.
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