Luís Antunes: Uma vida dedicada à Polícia Civil
Neste domingo, 14 de junho, o investigador Luís Antunes, ou, simplesmente, Luisão, alcança uma marca reservada a poucos profissionais da segurança pública brasileira: 50 anos de carreira na Polícia Civil do Estado de São Paulo. Aos 72 anos de idade, ele continua na ativa e carrega uma trajetória construída entre investigações, operações policiais, madrugadas de plantão e incontáveis histórias vividas nas ruas. Natural de Peabiru, no Paraná, ingressou na Polícia Civil em 1976, aos 21 anos, após trabalhar como bancário e viver em diversas cidade em alguns estados do país. O que começou como uma mudança de rumo profissional transformou-se em uma missão de vida.
Durante cinco décadas, Luís acompanhou profundas transformações na atividade policial. Viu a tecnologia revolucionar as investigações, trabalhou ao lado de nomes que marcaram a história da Polícia Civil em Limeira e enfrentou situações que colocaram sua própria vida em risco. Uma delas ocorreu no início da década de 1980, quando foi atingido por um disparo de espingarda calibre 12 durante uma operação para capturar um criminoso conhecido como "Rei do Algodão". O policial passou meses internado, enfrentou um longo processo de recuperação e retornou ao trabalho. Ao completar meio século de carreira, Luís Antunes conversou com a reportagem sobre os desafios da profissão, as mudanças na investigação criminal e as lembranças que acumulou ao longo dos anos.
Gazeta - Como surgiu o interesse pela Polícia Civil?
Luís - Eu trabalhava como bancário e minha vida seguia um caminho completamente diferente. Mas sempre tive curiosidade pela atividade policial. Naquela época a polícia despertava muito interesse nas pessoas, existia aquele lado da investigação, da busca pela verdade, dos desafios diários. Quando surgiu a oportunidade de ingressar na Polícia Civil, resolvi tentar. Entrei inicialmente como carcereiro e, depois de alguns meses, passei para a função de investigador. Foi uma decisão que mudou completamente minha vida. Hoje, olhando para trás, vejo que foi uma das escolhas mais importantes que fiz.
Gazeta - O senhor imaginava que chegaria aos 50 anos de carreira?
Luis - De maneira nenhuma. Quando somos jovens pensamos muito no presente. Aos 21 anos eu não tinha como imaginar que continuaria na polícia cinco décadas depois. O tempo passa muito rápido. Quando você percebe, já viveu uma vida inteira dentro da instituição. Hoje olho para trás e vejo quantas pessoas passaram pela minha trajetória, quantas histórias aconteceram e quantas mudanças a própria sociedade viveu nesse período.
Gazeta - O que mais mudou na atividade policial desde que o senhor entrou na corporação?
Luís - Mudou praticamente tudo. Quando comecei, a investigação era muito baseada no contato pessoal, na conversa, na informação obtida nas ruas. O policial precisava passar horas conversando com pessoas, levantando informações e ligando fatos. Muitas vezes uma investigação levava dias ou semanas para avançar. Hoje a tecnologia se tornou uma grande aliada. Câmeras de monitoramento, imagens, sistemas de consulta e recursos tecnológicos ajudam muito. Existem crimes que atualmente são esclarecidos em poucas horas graças a ferramentas que não existiam há 50 anos.
Gazeta - O senhor sente falta da forma como a polícia trabalhava antigamente?
Luís - Existem coisas que mudaram para melhor e isso é inegável. A tecnologia trouxe recursos extraordinários para a investigação. Mas havia também um lado muito forte do trabalho de rua. O policial precisava conhecer as pessoas, conversar, construir relações de confiança e entender a dinâmica da cidade. Muitas vezes uma informação obtida numa conversa simples acabava resolvendo um caso importante. Hoje temos ferramentas modernas, mas continuo acreditando que o contato humano ainda faz toda a diferença.
Gazeta - Depois de tanto tempo de profissão, ainda existe algo capaz de surpreender um investigador?
Luís - Sempre existe. A experiência ajuda bastante, mas a realidade é dinâmica. Quando você acha que já viu tudo, aparece uma situação diferente. A natureza humana é muito complexa. Em 50 anos eu acompanhei casos envolvendo crianças, famílias, crimes violentos, conflitos emocionais e situações que jamais imaginaria encontrar quando comecei na profissão. A cada ano surgem novos desafios.
Gazeta - Ao longo da carreira, o senhor participou de ocorrências que o marcaram profundamente?
Luís - Muitas. É difícil destacar apenas uma ou duas porque são centenas de histórias. Algumas envolvem violência, outras envolvem sofrimento humano. Existem casos que marcam porque têm vítimas muito jovens. Outros marcam pela crueldade. Também existem ocorrências que ficam na memória porque conseguimos ajudar alguém em um momento extremamente difícil. São lembranças que acabam acompanhando o policial por toda a vida.
Gazeta - Depois de tantos anos, é possível separar a vida profissional da vida pessoal?
Luís - Nem sempre. Existem ocorrências que ficam na memória. Algumas pela violência, outras pelo sofrimento das pessoas envolvidas. O policial aprende a conviver com isso, mas não deixa de ser um ser humano. Em muitos momentos você acaba levando para casa reflexões sobre aquilo que viu durante o dia. Por isso o equilíbrio emocional é tão importante para quem trabalha na segurança pública.
Gazeta - O senhor já esteve em situações de confronto armado?
Luís - Sim. Ao longo da carreira participei de diversas ocorrências desse tipo. Fui baleado três vezes e vivi momentos bastante delicados. Felizmente consegui superar todas essas situações e continuar trabalhando.
Gazeta - O episódio em que o senhor foi atingido por um tiro de calibre 12 é considerado o mais marcante da carreira?
Certamente está entre os mais marcantes. Foi uma ocorrência envolvendo um criminoso conhecido como "Rei do Algodão", que já era apontado como autor de vários homicídios. Recebemos informações de que ele estava escondido em uma residência e fomos até o local. Quando a equipe chegou, houve reação e começou o confronto. Acabei sendo atingido por um disparo de espingarda calibre 12 na perna esquerda.
Gazeta - Quando o senhor voltou a trabalhar depois da recuperação, pensou em deixar a profissão?
Luís - Não. Em nenhum momento pensei em abandonar a carreira. Claro que foi um período difícil. Foram meses de recuperação, tratamentos e incertezas. Mas a minha vontade era voltar ao trabalho. A polícia já fazia parte da minha vida. Eu gostava do que fazia e queria continuar contribuindo.
Gazeta - Qual foi a gravidade do ferimento?
Luís - Foi muito grave. Passei cerca de seis meses internado. Precisei ser encaminhado para São Paulo para tratamento e recuperação. Na época alguns procedimentos ainda eram novidade e o processo foi longo. Tenho sequelas até hoje. Foi um período muito difícil para mim e para minha família.
Gazeta - Quem estava ao seu lado naquela ocorrência?
Luís - Eu estava acompanhado por vários colegas experientes. Entre eles estava o investigador Sérgio Sanromão, que infelizmente já faleceu. Trabalhamos juntos durante muitos anos. Ele era um profissional extremamente competente, dedicado e muito respeitado por todos que tiveram a oportunidade de trabalhar ao seu lado.
Gazeta - O senhor acredita que o apoio dos colegas foi importante naquele momento?
Luís - Sem dúvida. Ninguém constrói uma carreira sozinho. Principalmente em uma profissão como a nossa. Existem momentos em que dependemos completamente dos companheiros de equipe. Naquela ocorrência recebi apoio dos colegas e isso foi fundamental. A Polícia Civil sempre teve profissionais muito comprometidos e tive a sorte de trabalhar ao lado de pessoas extraordinárias ao longo desses 50 anos.
Gazeta - O que representa para o senhor lembrar de companheiros como Sérgio Sanromão depois de tantos anos?
Luís - Representa uma parte importante da minha história. A polícia é uma profissão em que as pessoas convivem intensamente. Passamos dias, noites, fins de semana e feriados trabalhando juntos. Criam-se laços muito fortes. O Sérgio foi um profissional admirável e uma pessoa muito respeitada. Quando lembramos desses colegas, lembramos também de tudo o que vivemos juntos ao longo da carreira.
Gazeta - Em algum momento o senhor teve medo de morrer?
Luís - O policial aprende a lidar com situações de risco. Não é uma questão de coragem ou ausência de medo. Se você parar para pensar em tudo o que pode acontecer, acaba não saindo de casa. O importante é manter a calma e agir da maneira correta. Já tive arma apontada para mim, já enfrentei situações extremamente tensas, mas sempre procurei manter o controle emocional.
Gazeta - O senhor acredita que a experiência ajuda a controlar situações de risco?
Luís - Ajuda bastante. A experiência ensina a observar melhor, a falar na hora certa e a agir com mais equilíbrio. Muitas situações não se resolvem com força, mas com calma. Com o tempo o policial aprende a analisar melhor os cenários e a evitar decisões precipitadas.
Gazeta - Qual é a principal característica que um bom policial precisa ter?
Luís - Equilíbrio. Muita gente pensa que o trabalho policial se resume à ação, mas a verdade é que a palavra resolve muito mais problemas do que a força. Saber conversar, ouvir e compreender as situações é fundamental. Já participei de inúmeras ocorrências em que o diálogo evitou consequências graves.
Gazeta - Essa postura sempre fez parte do seu trabalho!
Luís - Sempre procurei tratar as pessoas com respeito. Isso não significa ser fraco ou deixar de agir quando necessário. Significa entender que cada situação exige inteligência. Muitas vezes uma conversa bem conduzida resolve um problema que poderia se transformar em um conflito muito maior. O respeito costuma abrir portas que a imposição não consegue abrir.
Gazeta - Pela sua experiência, qual é o maior erro que um policial pode cometer?
Luís - Talvez seja agir sem pensar. A precipitação costuma trazer problemas. Cada ocorrência tem suas particularidades. Por isso é importante analisar a situação, ouvir as pessoas e tomar decisões com responsabilidade. A experiência mostra que equilíbrio e bom senso costumam produzir melhores resultados.
Gazeta - Ao olhar para os 50 anos de carreira, do que o senhor mais se orgulha?
Luís - Tenho orgulho de ter construído uma trajetória honesta. Orgulho de ter trabalhado ao lado de profissionais competentes e de ter procurado cumprir minha missão da melhor forma possível. Nenhuma carreira é perfeita, mas posso dizer que sempre procurei fazer meu trabalho com dedicação e respeito às pessoas.
Gazeta - O senhor se considera realizado profissionalmente?
Luís - Sim. Muito realizado. Claro que todos nós temos sonhos que acabam ficando pelo caminho, mas olhando para a minha trajetória posso dizer que me sinto satisfeito. Tive a oportunidade de exercer uma profissão que gosto, trabalhei ao lado de grandes profissionais e participei de momentos importantes da história da Polícia Civil.
Gazeta - O que sente ao completar 50 anos de carreira?
Luís - Sinto gratidão. Gratidão pela oportunidade de continuar trabalhando, pela confiança que recebi ao longo da vida e pelas pessoas que fizeram parte dessa caminhada. Também sinto orgulho da história construída. Foram cinco décadas de dedicação. Nem sempre foi fácil, mas valeu a pena.
Gazeta - E o que a Polícia Civil representou na sua vida?
Luís - Representou praticamente a minha vida inteira. Entrei muito jovem e construí minha história dentro da instituição. Foi através da polícia que vivi experiências, conheci pessoas, enfrentei desafios e amadureci como profissional e como ser humano. São 50 anos de lembranças que carregarei para sempre.
Gazeta - Que conselho deixa para os jovens que sonham seguir a carreira policial?
Luís - Que entrem na profissão com seriedade, responsabilidade e respeito pelas pessoas. A Polícia Civil precisa de profissionais preparados e comprometidos. É uma carreira que exige sacrifícios, mas também oferece a oportunidade de contribuir diretamente para a sociedade. Quem escolher esse caminho deve fazer isso por vocação e com muito senso de responsabilidade.
Aos 72 anos de idade, Luís Antunes continua trabalhando com a mesma serenidade que o tornou uma das figuras mais conhecidas da Polícia Civil de Limeira. Sobreviveu a confrontos armados, acompanhou a transformação da investigação criminal ao longo de cinco décadas e viu gerações de policiais passarem pela instituição.
Neste domingo, enquanto a maioria dos leitores estarão lendo está matéria e familiares, amigos, colegas de profissão e leitores celebrando os seus 50 anos de carreira, Luisão não terá tempo de comemorar. Luizão estará exatamente onde passou a maior parte da vida: em uma delegacia da Polícia Civil, cumprindo mais um dia de trabalho.
Talvez seja essa a melhor definição de Luís Antunes. Meio século depois de ingressar na Polícia Civil, este "jovem senhor" continua vestindo a mesma responsabilidade, carregando a mesma experiência e mantendo o mesmo compromisso que sempre teve com o serviço público. Uma trajetória rara, construída dia após dia, ocorrência após ocorrência, ao longo de 50 anos, exatamente, daquilo que ele nasceu para fazer.
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