Tecnologia avança, mas exclusão digital para idosos preocupa, diz especialista
A
inteligência artificial tem transformado a forma como as pessoas se comunicam,
acessam serviços e cuidam da saúde. Entre os públicos impactados por essa
evolução tecnológica está a população idosa, que pode encontrar na inovação uma
aliada para ampliar a autonomia, a segurança e a qualidade de vida. Ao mesmo
tempo, a rápida digitalização da sociedade também impõe desafios relacionados à
inclusão, à acessibilidade e à proteção contra golpes e desinformação.
Para
discutir os benefícios, os riscos e as perspectivas da inteligência artificial
no processo de envelhecimento, a Gazeta de Limeira entrevistou Alice Helena De
Danielli, profissional de carreira da Universidade Estadual de Campinas
(Unicamp) há quase 40 anos, com ampla experiência em gestão universitária e no
desenvolvimento de programas voltados à educação e à inclusão social.
Idealizadora e coordenadora do Programa UniversIDADE em duas gestões, ela
contribuiu para a consolidação e a expansão de iniciativas voltadas ao
envelhecimento ativo e à integração da população idosa ao ambiente
universitário. Alice é graduada em Administração e possui especialização em
Desenvolvimento Gerencial.
A
inteligência artificial está cada vez mais presente no cotidiano. Como essa
tecnologia pode contribuir para melhorar a qualidade de vida e a autonomia das
pessoas idosas?
Embora a
Inteligência Artificial tenha potencial para contribuir significativamente para
a melhoria da qualidade de vida e da autonomia das pessoas idosas, é importante
refletir sobre os desafios que essa tecnologia também impõe. Vejo com
preocupação a velocidade com que as transformações tecnológicas vêm ocorrendo e
seus impactos sobre a população idosa, que muitas vezes encontra dificuldades
para acompanhar esse desenvolvimento.
Nesse
contexto, é fundamental que o poder público, a iniciativa privada e a sociedade
civil estejam atentas a essa nova realidade, promovendo inclusão digital,
acessibilidade e capacitação para o uso das tecnologias. Mais do que
desenvolver novas ferramentas, é necessário garantir que as pessoas idosas
possam utilizá-las de forma segura, compreensível e benéfica, evitando que a
inovação tecnológica amplie desigualdades ou gere novas formas de exclusão
social.
Quais são
os principais desafios que os idosos enfrentam para utilizar ferramentas
baseadas em inteligência artificial, como assistentes virtuais e aplicativos
inteligentes?
Os
desafios enfrentados pelas pessoas idosas para utilizar ferramentas baseadas em
Inteligência Artificial são muitos e vão além da simples aprendizagem do uso
das tecnologias digitais. Um dos principais obstáculos é a exclusão digital, já
que muitos idosos não possuem familiaridade com smartphones, aplicativos e
assistentes virtuais.
Além
disso, questões econômicas também influenciam esse processo, pois nem todos
dispõem de aparelhos celulares adequados ou de planos de internet compatíveis
com a instalação e o uso contínuo desses recursos. Na aquisição de novos
dispositivos, é comum que informações técnicas importantes, como capacidade de
armazenamento, memória, consumo de dados e desempenho do aparelho, não sejam
explicadas de forma acessível pelos vendedores. E, mesmo quando essas
orientações são oferecidas, a linguagem excessivamente técnica pode dificultar
a compreensão por parte das pessoas idosas.
Dessa
forma, para que a Inteligência Artificial se torne uma ferramenta de inclusão e
promoção da autonomia, é essencial investir em acessibilidade, linguagem
simplificada, suporte técnico adequado e programas de educação digital voltados
especificamente para a população idosa.
Existe o
risco de a inteligência artificial aumentar o isolamento social entre os idosos
ou, ao contrário, ela pode fortalecer a comunicação e a inclusão digital dessa
população?
Acredito
que existe, sim, o risco de a Inteligência Artificial e as tecnologias digitais
ampliarem o isolamento social das pessoas idosas, especialmente quando essas
ferramentas são implementadas sem considerar as necessidades e limitações dessa
população. O uso das tecnologias ainda gera insegurança e preocupação entre
muitos idosos, principalmente em razão do aumento dos golpes cibernéticos, das
fraudes digitais e do receio de cometer erros ao utilizar aplicativos e
serviços online.
Por isso,
é fundamental investir em programas de capacitação e inclusão digital voltados
especificamente para as pessoas idosas, garantindo que elas possam utilizar
essas ferramentas com segurança e autonomia e, assim, manter-se conectadas e
inseridas socialmente.
Um exemplo
evidente dessa realidade está nos serviços bancários. Muitas pessoas idosas
ainda não utilizam pagamentos via PIX ou aplicativos bancários e encontram
dificuldades porque as agências possuem cada vez menos caixas físicos e
atendentes, substituindo o atendimento presencial por caixas eletrônicos e plataformas
digitais. Essa transformação, embora represente avanços para parte da
população, pode dificultar o acesso aos serviços para aqueles que não
acompanham essas mudanças tecnológicas.
Outra
questão importante refere-se ao uso do dinheiro em espécie. Muitas pessoas
idosas ainda preferem realizar pagamentos utilizando cédulas e moedas, porém o
comércio vem reduzindo cada vez mais o uso do dinheiro físico, chegando, em
alguns casos, a não disponibilizar troco suficiente. Essa realidade pode gerar
constrangimentos e aumentar a sensação de exclusão diante de uma sociedade cada
vez mais digitalizada.
Portanto,
para que a Inteligência Artificial fortaleça a comunicação e a inclusão
digital, e não o isolamento social, é indispensável que seu desenvolvimento e
implementação sejam acompanhados de políticas de acessibilidade, educação
digital e manutenção de alternativas presenciais de atendimento e serviços.
Como
familiares, cuidadores e profissionais de saúde podem utilizar a inteligência
artificial de forma ética e segura para acompanhar a saúde e o bem-estar dos
idosos?
Orientando
e acolhendo as pessoas idosas, vem como acompanhando suas ações, em especial. Familiares,
cuidadores e profissionais de saúde podem utilizar a Inteligência Artificial de
forma ética e segura para acompanhar a saúde e o bem-estar das pessoas idosas,
desde que essa tecnologia seja utilizada como uma ferramenta de apoio e não
como substituta do cuidado humano, da escuta e do acolhimento.
Quando
utilizada de forma responsável e acompanhada pelo suporte humano, a
Inteligência Artificial pode contribuir para o monitoramento da saúde, a
prevenção de agravos e a melhoria da qualidade de vida das pessoas idosas,
fortalecendo o cuidado e não substituindo as relações humanas.
Na sua
avaliação, quais cuidados devem ser adotados para proteger os idosos contra
golpes, desinformação e outros riscos associados ao uso de tecnologias baseadas
em inteligência artificial?
É
fundamental orientar essa população sobre os principais tipos de golpes virtuais,
fraudes, notícias falsas e tentativas de obtenção indevida de dados pessoais,
para que possam utilizar as tecnologias com maior segurança e confiança.
O uso
ético da Inteligência Artificial exige atenção à privacidade, à proteção dos
dados pessoais e ao respeito à autonomia das pessoas idosas, garantindo que
elas participem das decisões relacionadas ao seu cuidado e ao compartilhamento
de suas informações.
Olhando
para os próximos anos, como você acredita que a inteligência artificial
transformará o envelhecimento da população e quais políticas ou ações serão
necessárias para garantir que essa tecnologia seja acessível e benéfica para
todos os idosos?
Nos
próximos anos, acredito que a Inteligência Artificial transformará
significativamente o processo de envelhecimento da população, trazendo novas
possibilidades para o acompanhamento da saúde, a promoção da autonomia, a
prevenção de doenças e a facilitação das atividades do cotidiano. No entanto,
esses benefícios somente serão plenamente alcançados se as pessoas idosas
tiverem condições reais de acessar e utilizar essas tecnologias.
Existe o
risco de que a rápida evolução tecnológica amplie ainda mais as desigualdades e
a exclusão digital entre os idosos que não possuem acesso a equipamentos
adequados, conexão à internet ou conhecimentos suficientes para utilizar
ferramentas digitais e recursos baseados em Inteligência Artificial.
Por essa
razão, serão necessárias políticas públicas voltadas à inclusão e à capacitação
digital da população idosa, com investimentos em formação continuada,
acessibilidade, linguagem simplificada e suporte técnico adequado. Também será
importante garantir o acesso a dispositivos e serviços de internet a custos
acessíveis, especialmente para as populações mais vulneráveis.
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