Mãe transforma descoberta da deficiência auditiva do filho em aprendizado
Aos poucos, um comportamento
diferente de um dos filhos chamou a atenção de Raíssa Rodrigues. Mãe dos gêmeos
Arthur e Henrique, hoje com 10 anos, ela percebeu ainda nos primeiros seis
meses de vida que Arthur não reagia aos sons da mesma forma que o irmão. A
observação levou a família a buscar atendimento médico e, posteriormente, ao
diagnóstico de hipoacusia bilateral.
Arthur tem 7% de audição no
ouvido esquerdo e 4% no ouvido direito. A descoberta ocorreu após um período
marcado pela prematuridade, internação hospitalar e uma série de exames para
identificar a causa da perda auditiva.
Os irmãos nasceram prematuros e
precisaram de cuidados na UTI Neonatal. Henrique permaneceu 15 dias internado,
enquanto Arthur ficou um mês. Segundo Raíssa, o teste da orelhinha não foi
realizado após o nascimento porque, devido ao tamanho dos bebês, o equipamento
disponível no hospital na época em que foram atendidos não cabia no ouvido
deles.
A diferença entre os irmãos
começou a ficar evidente aos 6 ou 7 meses. Raíssa conta que, quando colocava
vídeos com músicas na televisão ou conversava perto deles, Henrique procurava a
origem do som. Arthur, porém, só prestava atenção quando já estava olhando para
a tela ou para as pessoas. “Quando eu chamava o Henrique, ele me procurava, mas
o Arthur não procurava e não reagia ao som. Foi quando eu percebi que havia
algo diferente”, relata.
Durante a internação, Arthur
também adquiriu uma infecção hospitalar e recebeu um medicamento que, segundo a
mãe, poderia afetar a visão e a audição. Os exames posteriores apontaram alterações
no sistema auditivo.
DIAGNÓTICO
Depois de procurar atendimento
médico, Raíssa recebeu o pedido para a realização do BERA, exame que avalia a
resposta do sistema auditivo aos estímulos sonoros. O resultado confirmou a
hipoacusia bilateral e apontou má-formação na cóclea e no labirinto. Outros
exames foram solicitados até que Arthur pudesse iniciar o tratamento com
aparelho auditivo.
Para Raíssa, o diagnóstico
provocou medo e incertezas. Entre as principais preocupações estavam a
comunicação do filho, a vida escolar e a possibilidade de ele sofrer bullying.
“Meu mundo desabou por alguns dias. Eu não parava de pensar em como seria nossa
vida dali em diante. Como seria na escola, se ele saberia falar e se, quando
usasse o aparelho, sofreria bullying. Meu maior medo até aquele momento era o
bullying na escola”, conta.
Arthur colocou o aparelho
auditivo aos 1 ano e 4 meses. No início, passou por quatro consultas semanais
com a fonoaudióloga. Com a evolução, os atendimentos foram reduzidos até a alta
e, desde cedo, a família decidiu que a deficiência auditiva não impediria
Arthur de realizar as atividades próprias da infância. O aparelho passou a
fazer parte da rotina, sem ser tratado como algo que deveria ser escondido.
Desde então, ele toma certos cuidados. Um que chama a atenção são os
coleguinhas da escola e, principalmente, Henrique e o irmão mais novo Davi.
Quando chove e não tem aonde se esconder, por exemplo, todos se abraçam e fazem
uma cabaninha para proteger o aparelho do amigo.
Aos 10 anos, Arthur tem autonomia
para cuidar dos dispositivos. Ele coloca os aparelhos sozinho ao acordar,
retira apenas para tomar banho e dormir e também percebe quando é necessário
trocar as baterias. “Hoje ele tem uma vida como toda criança. Desde o primeiro
contato com o aparelho, nunca mais ficou sem. Ele é medalhista de natação, um
bom atacante de futebol, tem excelentes notas na escola, é até coroinha na
Igreja”, conta a mãe.
Para Raíssa, a forma como a
família lidou com a deficiência foi importante para que o filho também
desenvolvesse uma relação natural com o aparelho. “Decidimos que isso não o
impediria de absolutamente nada. Adaptamos nossa vida e fizemos ele entender
que o aparelho não era algo ruim. Sempre deixei o aparelho à mostra para que
ele não pensasse que era diferente”, explica.
“O aparelho faz ele ainda mais
bonito”
O que no início representava medo
para a família hoje é encarado por Arthur com naturalidade. Segundo Raíssa, ele
brinca com o irmão e diz que é mais bonito porque o aparelho é um acessório que
nem todos têm.
A experiência também mudou a
forma como Raíssa enxerga o papel da família diante da descoberta de uma
deficiência. “Para nós, mães, quando descobrimos uma deficiência em nossos
filhos, muitas vezes nos sentimos culpadas por eles terem que lidar com a
deficiência. Mas nós seremos responsáveis por eles aceitarem aquela deficiência
e conseguirem viver melhor. A partir do momento que nós aceitamos e mostramos
para eles que o que podemos fazer é nos adaptar, nossos filhos não vão se
sentir diferentes. Eles vão se amar e se aceitar melhor”, afirma.
Para ela, falar sobre as
diferenças desde cedo ajuda a criança a construir uma relação mais natural com
aquilo que faz parte da própria vida. “Nós precisamos acreditar que ser
diferente é divertido também”, diz Raíssa, que recomenda às mães a música “A
diferença que nos une”, do Mundo Bita.
A história de Arthur mostra que,
quando a família transforma o medo em acolhimento e as diferenças em parte da
rotina, a criança encontra espaço para crescer com autonomia, confiança e
alegria. Para Raíssa, mais do que aprender a conviver com o aparelho, a família
aprendeu a enxergar que nenhuma diferença precisa limitar os sonhos de uma
criança.
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