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NEM TUDO É TDAH

O Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é um transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado por padrões persistentes de desatenção, hiperatividade e impulsividade que se manifestam de forma contínua e impactam significativamente a vida da pessoa. Não se trata de distração ocasional, de inquietação pontual ou de dificuldades comuns da vida moderna. O diagnóstico de TDAH exige que esses sintomas estejam presentes desde a infância, causem prejuízos reais e se manifestem em mais de um contexto: escola, trabalho, relações sociais, vida familiar. Por isso, não é um diagnóstico que se faz por intuição, por identificação com um vídeo ou por uma lista de comportamentos compartilhada nas redes sociais. Ele é fruto de um processo cuidadoso, técnico e ético, conduzido por profissionais habilitados, como psiquiatras, neurologistas infantis e psicólogos clínicos com formação sólida em avaliação psicológica.

O diagnóstico envolve entrevistas clínicas detalhadas, análise do histórico de vida, investigação de comorbidades, aplicação de instrumentos validados e, muitas vezes, coleta de informações com familiares ou pessoas próximas. É um processo que exige tempo, escuta qualificada e responsabilidade. Não é um carimbo, não é uma moda, não é um rótulo que se adota porque parece explicar tudo. É uma ferramenta clínica que orienta o tratamento e ajuda a pessoa a compreender seu funcionamento, suas dificuldades e suas potencialidades.

Receber um diagnóstico, no entanto, não significa estar isento de responsabilidade. Ao contrário: significa assumir um compromisso consigo mesmo. O diagnóstico não é uma justificativa para permanecer no sofrimento, nem uma autorização para se acomodar. Ele não é um álibi para comportamentos prejudiciais, nem uma carta branca para evitar mudanças. Nos últimos anos, temos observado um fenômeno preocupante: muitas pessoas têm usado o diagnóstico - ou a suspeita dele - como explicação para seus comportamentos, mas sem buscar tratamento adequado. O diagnóstico vira escudo, muleta, desculpa. “Tenho TDAH, por isso não consigo.” “Tenho TDAH, por isso não tento.” “Tenho TDAH, por isso sou assim.” Mas diagnóstico não é destino. É direção. É ponto de partida. É convite para agir.

A internet, com sua velocidade e superficialidade, tem contribuído para a banalização do TDAH e de outros transtornos. Vivemos em uma era em que vídeos curtos, listas simplificadas e conteúdos produzidos por influenciadores sem formação técnica circulam com enorme alcance. A promessa de explicações rápidas e fáceis seduz, mas empobrece. Reduz transtornos complexos a caricaturas. Incentiva o autodiagnóstico. E, pior, cria a ilusão de que compreender um transtorno é tão simples quanto assistir a um vídeo de trinta segundos.

Ferramentas não validadas, testes improvisados e checklists caseiros são apresentados como se fossem equivalentes a instrumentos clínicos. Não são. E podem causar danos profundos. Pessoas passam a acreditar que têm um transtorno que não têm. Outras deixam de investigar condições importantes, como ansiedade, depressão, transtornos de aprendizagem, estresse crônico, burnout. Algumas se acomodam em explicações fáceis para sofrimentos complexos. Outras se sentem autorizadas a não buscar ajuda. A saúde mental não pode ser tratada como entretenimento. Não pode ser reduzida a conteúdo viral. Não pode ser transformada em diagnóstico de si mesmo feito diante da tela do celular.

É fundamental reforçar que apenas profissionais legalmente habilitados podem diagnosticar TDAH. Psiquiatras, neurologistas infantis e psicólogos clínicos com formação adequada em avaliação psicológica são os responsáveis por esse processo. São eles que possuem o conhecimento técnico, a ética e os instrumentos necessários para diferenciar TDAH de outras condições que podem produzir sintomas semelhantes. São eles que sabem avaliar nuances, identificar comorbidades, compreender o contexto e orientar o tratamento de forma segura e eficaz.

Da mesma forma, é responsabilidade do indivíduo não transformar seu diagnóstico em desculpa. O tratamento do TDAH — que pode incluir psicoterapia, intervenções comportamentais, mudanças de rotina, estratégias de organização e, quando indicado, medicação - exige esforço, constância e coragem. Exige enfrentar hábitos, revisar padrões, aprender novas formas de lidar com o cotidiano. Exige compromisso. Usar o diagnóstico como justificativa para não enfrentar esse processo é desperdiçar a oportunidade de evoluir. É permanecer preso ao sofrimento quando existe caminho possível para a melhoria.

Vivemos em uma sociedade que, ao mesmo tempo em que banaliza diagnósticos, também romantiza o sofrimento. Há uma tendência crescente de transformar transtornos em identidade, sintomas em personalidade, dificuldades em destino. Mas diagnóstico não é identidade. Não é quem a pessoa é. É apenas uma parte da história e, muitas vezes, uma parte que pode ser transformada com tratamento adequado. Diagnóstico não é sentença. Não é limite. Não é prisão. Diagnóstico é ponte. Uma travessia possível entre o sofrimento e a melhoria. Entre o caos e a organização. Entre a dor e o cuidado.

 

Que cada pessoa que recebe um diagnóstico de TDAH ou de qualquer outro transtorno possa enxergá-lo como um convite à responsabilidade, ao cuidado e ao compromisso consigo mesma. Que entenda que o diagnóstico não a define, mas a orienta. Que compreenda que o tratamento é caminho, não castigo. E que, como sociedade, possamos combater a banalização da saúde mental, valorizando o conhecimento técnico, respeitando os profissionais habilitados e reconhecendo que nem tudo é TDAH. Há cansaço, há estresse, há sobrecarga, há ansiedade, há falta de descanso, há excesso de estímulos, há vidas exaustas. Nem tudo é transtorno. Nem tudo é diagnóstico. E, quando é, que seja tratado com a seriedade que merece.

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