A ‘derrota’ do Brasil no Oscar 2026 esconde uma vitória que pouca gente percebeu
Mesmo com a torcida e a esperança brasileiras, o país não conquistou nenhuma das cinco categorias que disputava no Oscar 2026. O filme O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, perdeu em Melhor Elenco para Uma Batalha Após a Outra, em Melhor Filme Internacional para Valor Sentimental e em Melhor Ator e Melhor Filme para Pecadores. O diretor de fotografia Adolpho Veloso também não levou a estatueta pelo filme estadunidense Sonhos de Trem.
Especialistas afirmam que, apesar das derrotas, o cinema brasileiro tem muito a comemorar. A avaliação é que a trajetória do longa nacional até a maior premiação do cinema mundial reforça a importância da arte produzida no Brasil. As perdas não invalidam a relevância nem o potencial dos profissionais brasileiros.
Farid Zaine, compositor, ator, diretor de teatro, poeta, cinéfilo e também colunista da Gazeta de Limeira, traz suas considerações sobre a noite da 98ª edição do Oscar que consagrou o filme Uma Batalha Após a Outra com seis estatuetas, entre elas Melhor Filme e Melhor Diretor para Paul Thomas Anderson. O longa superou Pecadores, recordista de indicações da história do Oscar, com 16, e que terminou a noite com quatro prêmios.
Paul Thomas Anderson já merecia há muito tempo o Oscar de Melhor Diretor. Sua filmografia é expressiva e inclui obras marcantes como Magnólia, Sangue Negro e Trama Fantasma. Uma Batalha Após a Outra também venceu nas categorias de Melhor Montagem, Melhor Ator Coadjuvante (Sean Penn), Melhor Direção de Elenco e Melhor Roteiro Adaptado. Já Pecadores venceu nas categorias de Melhor Ator (Michael B. Jordan), Roteiro Original, Trilha Sonora e Fotografia.
Havia uma unanimidade que se confirmou: Jessie Buckley como Melhor Atriz por Hamnet, filme de Chloé Zhao. Na obra, ela interpreta Agnes, esposa de Shakespeare, em um longa sensível que retrata o luto pela morte do filho do casal, Hamnet, aos 11 anos, vítima da peste. A atuação intensa de Buckley como uma mãe devastada pela perda fez dela, desde o início da temporada de premiações, a favorita ao prêmio.
Como previsto, Frankenstein, com nove indicações, venceu nas categorias técnicas, que evidenciam o talento de Guillermo del Toro para o visual de seus filmes, sempre impressionante. O longa levou os prêmios de Melhor Desenho de Produção (Direção de Arte), Maquiagem e Figurino. Também dentro das expectativas vieram os Oscars de Melhor Animação e Melhor Canção Original (Golden) para o sul-coreano Guerreiras do K-Pop.
No caso do Brasil, o país não converteu suas indicações em prêmios, mas é possível afirmar que sai desta edição do Oscar como um grande vitorioso. Vejamos cada uma das indicações:
Melhor Filme: O vencedor foi Uma Batalha Após a Outra, mas O Agente Secreto figurou entre os dez melhores filmes do ano. Trata-se de um feito importante, considerando que a Academia analisou 201 filmes elegíveis para a categoria e selecionou apenas dez finalistas. Na prática, todos os indicados já são vencedores, já que cerca de 190 produções qualificadas ficaram de fora da lista final.
Melhor Ator: Wagner Moura não levou o Oscar, embora tivesse méritos para isso. No início da campanha, Timothée Chalamet era apontado como favorito por Marty Supreme, mas acabou prejudicado por declarações polêmicas, como o desprezo pelo balé e pela ópera. Michael B. Jordan venceu o Actors Awards, prêmio concedido pelos atores de Hollywood, tornou-se favorito e confirmou o favoritismo ao interpretar os irmãos gêmeos de Pecadores. Moura, vencedor em Cannes, consolidou sua fase de grande visibilidade e reconhecimento no cenário cinematográfico internacional.
Melhor Direção de Elenco: Pela primeira vez o Oscar instituiu essa categoria, e O Agente Secreto esteve entre os cinco indicados graças ao trabalho de Gabriel Domingues — um feito expressivo.
Melhor Filme Internacional: Durante toda a campanha, o Brasil esteve lado a lado com Valor Sentimental, da Noruega, dividindo o favoritismo nas bolsas de apostas e em sites especializados. Como o filme norueguês tinha nove indicações e O Agente Secreto apenas quatro, a vitória brasileira já era considerada difícil.
Melhor Fotografia: Havia expectativa de que o prêmio fosse para o brasileiro Adolpho Veloso pelo belo trabalho em Sonhos de Trem. No entanto, a estatueta ficou com Pecadores, que também apresenta fotografia excepcional.
A longa temporada de premiações do cinema terminou no domingo, com a entrega do prêmio mais cobiçado da indústria: o Oscar. Desde 1989, a Academia deixou de usar a frase “the winner is...” ao anunciar os premiados. Em seu lugar, adotou “the Oscar goes to...”. A mudança evita a ideia de que exista um “perdedor” entre os indicados, decisão considerada acertada pela instituição.
Agora, resta seguir na torcida pelo cinema brasileiro, na expectativa de novos prêmios e de um público cada vez maior, tanto no país quanto no exterior, onde a cultura brasileira já recebe aplausos.
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