Confraria de Nossa Senhora da Boa Morte completa 170 anos
A Confraria de Nossa Senhora da Boa Morte e Assunção de Limeira celebra, em 13 de janeiro de 2026, 170 anos de fundação. Criada em 1856, a instituição consolida-se como a mais antiga em atividade contínua no município e integra o seleto grupo de irmandades leigas ainda existentes no Estado de São Paulo. O marco histórico motiva esta reportagem especial da Gazeta de Limeira, que entrevistou o historiador João Paulo Berto para analisar a relevância da Confraria na formação urbana, social e cultural da cidade.
A aprovação oficial ocorreu em 1856 pelo então bispo de São Paulo, dom Antônio Joaquim de Melo. Em um período no qual o Estado não atendia plenamente às demandas da população, associações leigas assumiam funções assistenciais, religiosas e administrativas. Nesse contexto, a Confraria da Boa Morte destacou-se pela articulação entre o sagrado e o civil, exercendo influência que ultrapassou o campo religioso.
Esse protagonismo refletiu-se na inauguração do templo próprio, em agosto de 1868, construído em terreno adquirido da Câmara Municipal de Limeira. No ano seguinte, a entidade recebeu o título de Confraria por provisão da Nunciatura Apostólica, em nome do papa Pio IX, fato que ampliou seu prestígio institucional. Ainda em 1868, a associação inaugurou seu cemitério próprio, localizado na região onde hoje se inicia a Avenida da Saudade, elemento decisivo para a organização urbana do período.
Segundo João Paulo Berto, a inserção da Confraria no processo histórico de Limeira foi estrutural. Fundada quando o município ainda se consolidava como núcleo urbano, a irmandade participou da organização social, religiosa e simbólica do território. A construção da igreja redefiniu a paisagem urbana e contribuiu para a expansão do centro da cidade, criando fluxos, práticas coletivas e espaços de sociabilidade. Para o historiador, a Boa Morte deve ser compreendida como agente histórico que influenciou políticas assistenciais, práticas funerárias, saúde pública e educação, sobretudo pela atuação de seus membros, ligados às elites locais do século XIX.
Ao longo de quase dois séculos, a Confraria exerceu papel decisivo na criação e manutenção de serviços essenciais. A instituição esteve na origem da Santa Casa de Misericórdia de Limeira e assumiu a administração do antigo Asilo de Mendicidade, atual Asilo João Kühl Filho. No campo educacional, fundou, em 1917, a Escola Nossa Senhora da Assunção, que ofereceu ensino laico e de qualidade a crianças de diferentes classes sociais, muitas vezes de forma gratuita.
A Igreja Nossa Senhora da Boa Morte e Assunção consolidou-se como um dos principais marcos históricos e afetivos da cidade. Inaugurado em 1868, o templo soma cerca de 158 anos de existência e tornou-se espaço de memória coletiva, associado a ritos de passagem como batismos, casamentos e exéquias. Sua arquitetura, marcada pela sobriedade típica do período imperial paulista, transformou-se em referência patrimonial no centro urbano. Para Berto, a devoção à Boa Morte e Assunção de Maria dialoga com valores profundamente enraizados na tradição católica luso-brasileira e reforça o papel da igreja como espaço de acolhimento, sociabilidade e formação moral.
A atuação contínua da Confraria também foi decisiva para a preservação da memória histórica de Limeira. Desde o século XIX, a entidade manteve rituais, procissões e festividades que estruturaram o calendário religioso local. Paralelamente, preservou um acervo relevante, composto por imagens sacras, alfaias, livros de tombo, documentos e registros administrativos, fundamentais para a reconstituição da história municipal. Mesmo em períodos de crise institucional, como entre 1892 e 1897, a Confraria conseguiu reorganizar-se e retomar suas atividades, demonstrando forte enraizamento social.
O tombamento da Igreja Nossa Senhora da Boa Morte e Assunção, realizado em 2016, representou o reconhecimento oficial de seu valor histórico, artístico e cultural. O ato garantiu instrumentos legais para a preservação da integridade arquitetônica e simbólica do templo, além de fortalecer ações de educação patrimonial e valorização da memória local. Para o historiador, o tombamento legitima a importância das associações leigas católicas na formação das cidades brasileiras e projeta a Boa Morte como patrimônio vivo.
Entre os momentos mais marcantes da trajetória da Confraria destacam-se a fundação em 1856, a rápida aprovação eclesiástica, a sagração do templo em 1868 e a elevação à condição de Confraria em 1869. No campo social, sobressaem a atuação assistencial e educacional. Entre as personalidades ligadas à instituição figuram membros das elites políticas e econômicas locais, como Bento Manoel de Barros, Barão de Campinas, José Ferraz de Campinas, Barão do Cascalho, e o major José Levy Sobrinho, exemplos de como fé, poder e ação social se articularam na história limeirense.
Ao completar 170 anos, a Confraria de Nossa Senhora da Boa Morte e Assunção reafirma sua relevância histórica e sua capacidade de atravessar diferentes períodos políticos e sociais sem perder identidade. A instituição permanece como elo entre passado e presente, integrando devoção, memória e compromisso comunitário na trajetória de Limeira.
Em setembro haverá o lançamento de um livro sobre a história da Igreja e Confraria no contexto de aniversário de 200 anos de Limeira.
Neste sábado dia 10, às 16h haverá a Santa Missa em celebração festiva ao aniversário da Confraria.
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