Violência sexual contra jovens acontece principalmente dentro de casa
A psicóloga
Karen Patrícia Ottani, graduada em Psicologia e com especializações em
Psicopedagogia e Psicologia do Trânsito, conversou com a Gazeta de Limeira
sobre a dimensão silenciosa da violência sexual contra crianças e adolescentes
no Brasil. Segundo ela, o abusador aproveita-se da proximidade e da confiança
para manipular a vítima, distorcendo gestos de afeto e usando ameaças, o que
torna o abuso difícil de identificar e interromper.
Os dados da
Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2024, divulgada pelo IBGE,
mostram que 14,6% dos adolescentes de 13 a 17 anos já sofreram algum tipo de
violência sexual, sendo que aproximadamente 20% das meninas relataram ter sido
vítimas, mais que o dobro do percentual registrado entre meninos. O
levantamento também indica que em 29% dos casos o agressor é namorado(a) ou
parceiro(a) e em 24,8% é amigo ou conhecido, evidenciando que a violência
ocorre principalmente no convívio próximo.
Karen Ottani
explica que a quebra de confiança é um dos elementos mais traumáticos desse
tipo de violência. “A vítima é ferida por quem deveria protegê-la,
intensificando os danos emocionais e prolongando o sofrimento. Sem intervenção,
o ciclo de violência pode se repetir em gerações futuras”, afirma.
Os impactos
psicológicos podem ser graves, incluindo depressão, ansiedade, transtorno de
estresse pós-traumático, baixa autoestima, isolamento social, agressividade,
dificuldades escolares e comportamentos de risco, como ideação suicida. Quando
o agressor é alguém do núcleo familiar, o conflito de lealdade dificulta a denúncia,
pois a vítima teme desestruturar a família ou punir o agressor.
Sinais
comportamentais podem indicar situações de abuso: mudanças bruscas de humor,
retraimento ou extroversão excessiva, vergonha, medo, regressão a
comportamentos infantis e manifestações sexualizadas incompatíveis com a idade.
Sintomas físicos sem causa clínica aparente, como dores de cabeça, problemas
digestivos e queda no rendimento escolar, também merecem atenção. “A vítima
sempre dá sinais, ainda que não verbalize. É fundamental que adultos estejam
atentos”, alerta a psicóloga.
Para prevenir
a violência, especialistas defendem mudanças estruturais que envolvem família,
escola e políticas públicas. Em casa, é essencial criar canais de diálogo
seguros; nas escolas, incluir educação sobre consentimento e limites corporais;
e, no âmbito público, fortalecer redes de proteção integradas, garantindo
atendimento humanizado às vítimas e facilitando denúncias sem revitimização.
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