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Há seis anos OMS declarava a Covid-19 uma emergência global

Há exatos seis anos, em 30 de janeiro de 2020, a Organização Mundial da Saúde (OMS) classificou o surto como Emergência de Saúde Pública de Âmbito Internacional. As tentativas de contenção falharam, permitindo que o vírus se espalhasse para outras áreas da China e, posteriormente, para todo o mundo. No Brasil, menos de 60 dias depois, o primeiro caso foi confirmado e resultou em mais de 700 mil mortes. Entre a descoberta do vírus, as medidas de isolamento e o início da vacinação, passaram-se longos anos. Durante esse período, profissionais atuaram de forma incansável na linha de frente do combate à doença e no cuidado da população brasileira, como o médico clínico Tiago Feltrin Sierra. À época da pandemia, ele era médico emergencista e diretor clínico do Hospital de Cordeirópolis, diretamente envolvido na urgência e emergência. A Gazeta de Limeira conversou com o profissional, que relembra sua experiência em um dos períodos mais marcantes da história recente.

O avanço acelerado da Covid-19 impôs desafios inéditos aos sistemas de saúde, exigindo decisões rápidas, adaptação constante e dedicação extrema dos profissionais nos hospitais. Em Cordeirópolis, a resposta à crise incluiu estratégias locais de enfrentamento, reorganização da rede de atendimento e esforço coletivo para conter a disseminação do vírus e preservar vidas.

Em entrevista, o doutor Tiago explicou à Gazeta que a estratégia de testagem adotada no município priorizou pessoas com sintomas respiratórios, conforme as orientações técnicas vigentes à época, mas também incluiu indivíduos assintomáticos que tiveram contato próximo com casos suspeitos ou confirmados. A criação de um centro específico de testagem, com acesso voluntário, ampliou o rastreamento de casos, orientou o isolamento e possibilitou o início precoce do acompanhamento clínico. Essas ações contribuíram para interromper cadeias de transmissão e organizar a rede de saúde a partir do princípio de identificar cedo para isolar cedo.

O médico destacou que o enfrentamento da pandemia foi marcado pela incerteza diante de uma doença desconhecida, sem protocolos consolidados e com decisões tomadas em tempo real. A escassez de leitos em hospitais de referência levou o município a concentrar pacientes graves, exigindo que o hospital local funcionasse como uma UTI improvisada. A centralização do cuidado, com acompanhamento diário dos pacientes, padronização das condutas e comunicação direta com equipes e familiares, foi decisiva para garantir maior estabilidade clínica e contribuiu para resultados mais favoráveis em comparação a outras cidades da região no período mais crítico da crise sanitária.

Seis anos após a pandemia, a experiência vivida por doutor Tiago e tantos outros profissionais em Cordeirópolis reforça que emergências sanitárias não podem ser enfrentadas apenas com esforço individual. Elas exigem estrutura sólida e investimento contínuo em saúde pública. A crise evidenciou que muitos hospitais não estavam preparados para lidar com uma situação dessa magnitude, enfrentando carência de equipamentos, medicamentos, leitos e profissionais. Embora a injeção emergencial de recursos durante o período crítico tenha melhorado temporariamente alguns serviços, grande parte dessas fragilidades reapareceu depois, revelando um problema estrutural. A experiência também mostrou que hospitais mais bem estruturados responderam melhor à crise, enquanto outros tiveram dificuldades até para garantir o atendimento básico, reforçando a necessidade de tratar a saúde como prioridade permanente, com planejamento e investimentos constantes para reduzir o impacto de futuras emergências sanitárias.

Ao relembrar o período mais intenso da pandemia, o médico relata como a experiência atravessou sua carreira e sua formação humana e profissional. Tiago Feltrin Sierra descreve o impacto direto da crise sanitária em sua trajetória: “A pandemia foi um divisor de águas na minha trajetória profissional. Aqueles meses exigiram dedicação absoluta, com dias sem dormir, estudo constante e decisões tomadas à beira do leito, muitas vezes sem apoio estrutural ou respostas prontas. Foi um período de aprendizado intenso, vivido na prática, em tempo real”, destacou.

Atuar em um serviço que precisou funcionar como uma UTI improvisada obrigou-o a desenvolver rapidamente competências técnicas, raciocínio clínico e senso de responsabilidade. Houve situações em que procedimentos de alta complexidade precisaram ser realizados ali mesmo, pois não havia possibilidade de transferência. Nesses momentos, não existia manual, apenas a necessidade de agir e assumir as consequências das decisões. “Essa experiência transformou profundamente minha forma de exercer a medicina. Aprendi que o conhecimento técnico é fundamental, mas que presença, estudo contínuo e capacidade de assumir responsabilidades fazem toda a diferença em cenários críticos. Erros também fizeram parte do processo, e cada um deles trouxe aprendizado imediato, porque não havia margem para repetição. ”

Sobre experiência e lição, o profissional apontou: “Hoje, carrego a convicção de que ser médico não é apenas atuar quando tudo está sob controle, mas estar disposto a assumir responsabilidades quando não há respostas prontas. A pandemia mudou minha prática profissional e reforçou, de forma definitiva, o compromisso que tenho com o cuidado ao paciente. Atualmente, atuo na área de saúde mental, com prática médica voltada à psiquiatria. Com o tempo, deixei os plantões de emergência de lado eram muita adrenalina e direcionei minha atuação profissional para a saúde mental. ”

Seis anos após o início da maior crise sanitária do século, o relato do médico evidencia que os impactos da pandemia ultrapassam números e estatísticas. Eles permanecem na memória de quem esteve na linha de frente, nas decisões tomadas sob pressão extrema e nas transformações pessoais e profissionais que redefiniram o significado de cuidar, resistir e seguir em frente.


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