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A raiz africana dos rituais de Réveillon do Brasil

Segundo historiadores, o costume de celebrar a chegada de um novo ciclo no calendário não é nada novo. Existe há mais de 4 mil anos e as tradições de matriz africana exercem forte influência nas celebrações de Réveillon em todo o Brasil. Para abordar o tema e ampliar o entendimento sobre esses costumes, a Gazeta entrevistou o babalorixá Allan de Jagun, dirigente de uma Casa de Candomblé localizada no município de Cordeirópolis.

Ao falar sobre a presença desses rituais no cotidiano da população brasileira, o líder religioso destacou a relevância do debate, especialmente em um contexto ainda marcado pela intolerância religiosa. Segundo ele, mesmo diante de preconceitos históricos, as tradições afro-brasileiras permanecem vivas e amplamente praticadas. “É de suma importância responder essa pergunta nos tempos atuais, em que ainda presenciamos tanta intolerância religiosa. Apesar de apontamentos, nossas tradições afro-brasileiras estão fortemente presentes nas celebrações de grande parte da população do nosso país, principalmente por meio de pequenos rituais que buscam proteção, prosperidade e renovação para o novo ciclo que se inicia”, afirmou.

O babalorixá explicou que muitos desses costumes têm origem no Candomblé e na Umbanda, mas, ao longo do tempo, foram incorporados à cultura popular brasileira. “Esses rituais estão ligados a nós do Candomblé e também aos irmãos da Umbanda, mas, com o tempo, esses ritos e costumes foram incorporados à cultura popular brasileira. Vestir roupas brancas, pular as sete ondinhas, acender velas, entre outros exemplos, tornaram-se práticas comuns, inclusive entre pessoas que não seguem nossas religiões”, ressaltou.

Outro ponto abordado foi o significado das oferendas feitas ao mar durante a virada do ano, especialmente em cidades litorâneas. De acordo com Allan de Jagun, esses atos possuem um sentido de gratidão e respeito às divindades e à natureza. “Nós levamos essas oferendas ao mar para agradecer pelo ciclo que se encerra. Elas são direcionadas a Iemanjá, a grande mãe protetora, e a Oxalá, o pai de todos, senhor do branco e da paz. As frutas representam fartura e prosperidade. O branco simboliza proteção, paz e saúde. A vela simboliza a luz para que nunca fiquemos no escuro nos momentos de aflição”, explicou.

Ele também esclareceu que esses rituais não se restringem ao ambiente marítimo. “Esses agradecimentos não se limitam ao mar. Eles podem acontecer em outros espaços ligados aos nossos orixás, representados pelos elementos da natureza, como rios, cachoeiras, florestas e montanhas. No entanto, é fundamental que tudo seja feito em locais adequados, com consciência ambiental, respeito à natureza e às tradições religiosas. Não se deve subestimar nem sujar a morada do sagrado”, alertou.

Questionado sobre uma cor ou rito específico para a virada do ano de 2026, o babalorixá destacou o simbolismo do branco. “O branco é a cor que engloba tudo. Ele traz proteção, saúde, transformações, prosperidade e paz, valores dos quais precisamos muito nos últimos tempos, principalmente respeito”, afirmou. Ele fez, no entanto, uma observação importante: “Usar a cor da paz, da limpeza e da neutralidade só funciona se quem a utiliza estiver limpo interiormente. Caso contrário, o efeito pode ser o oposto”.

Durante a entrevista, Allan de Jagun também defendeu o reconhecimento das práticas religiosas de matriz africana como patrimônio cultural e histórico do Brasil. Para ele, essas tradições fazem parte da identidade nacional e da formação social do povo brasileiro. “Nossas tradições e práticas de matriz africana fazem parte da construção da identidade do povo brasileiro. Elas preservam o legado deixado por nossos ancestrais africanos escravizados, como os cânticos, a culinária, as danças, os valores e a hierarquia social que organiza nossos templos e também a vida fora deles”, destacou.

O babalorixá enfatizou ainda o papel dessas religiões na resistência cultural e no enfrentamento ao racismo e à intolerância religiosa. “Nós, das religiões de matriz africana, representamos resistência cultural. Combatemos diariamente o racismo e a intolerância religiosa. O reconhecimento patrimonial valoriza a diversidade cultural e garante que nossa história e nossos conhecimentos não se percam”, afirmou.

Ao final da entrevista, Allan de Jagun deixou uma mensagem especial aos leitores da Gazeta de Limeira para o novo ano. “Primeiro, agradeço ao Jornal Gazeta por essa oportunidade de falar sobre nossas tradições e nossa cultura, pedindo paz e respeito às religiões de matriz africana. Desejo aos leitores da Gazeta de Limeira um 2026 com muito amor, prosperidade, abundância e saúde. Que seja um novo ciclo de esperança e vitórias para todos nós”, concluiu.

 


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