O olhar que eterniza histórias: Wagner Morente celebra 36 anos de fotografia em Limeira
No Dia Mundial da Fotografia, celebrado hoje, 19 de agosto, a Gazeta homenageia um dos fotógrafos mais conhecidos de Limeira. Com 36 anos de carreira, Wagner Morente acompanhou as principais transformações da profissão, das câmeras de filme às digitais, e registrou acontecimentos que marcaram a história da cidade, além de momentos especiais de centenas de famílias.
Em entrevista à Gazeta Morente conta que iniciou a carreira com câmera profissional de filme 35 mm, época em que cada clique exigia planejamento, já que não era possível conferir o resultado na hora. Mais tarde, tornou-se um dos pioneiros no uso profissional das câmeras DSLR digitais. “Comecei fotografando com câmera profissional de filme 35 mm, quando cada clique precisava ser muito bem pensado, porque não existia a possibilidade de conferir a foto na hora. Depois, fui um dos pioneiros a trabalhar profissionalmente com câmeras DSLR digitais, e isso mudou completamente a maneira de fotografar”, conta.
Segundo o fotógrafo, a tecnologia trouxe mais agilidade ao trabalho e transformou também a pós-produção, que deixou os laboratórios para ocupar espaço nos computadores. “Hoje podemos conferir o resultado imediatamente, fazer milhares de imagens e entregar o trabalho de uma forma muito mais rápida. A pós-produção também mudou completamente”, afirma.
Apesar das mudanças, Morente considera que o principal elemento da fotografia permanece o mesmo: o olhar profissional. “A tecnologia ajuda muito, mas é o profissional que precisa saber enxergar a luz, o momento, a emoção e transformar aquilo em uma boa fotografia”, destaca.
Ao longo de 36 anos, a adaptação às novas tecnologias fez parte da rotina. “Foram 36 anos aprendendo, me adaptando e incorporando novas tecnologias — e continuo fotografando até hoje. Para mim, essa capacidade de se reinventar é uma das características mais importantes de um fotógrafo profissional”, diz.
Entre os registros que mais marcaram sua trajetória estão situações em que a fotografia revelou o lado humano por trás de acontecimentos difíceis. Durante uma reintegração de posse de uma área ocupada por um movimento sem-terra, Morente fotografou uma criança que deixava o local com poucos pertences. Um policial militar percebeu a situação, aproximou-se do menino e ofereceu carinho e conforto. “Aquela cena me marcou profundamente, porque mostrou o lado humano por trás de uma situação tão difícil”, lembra.
Outro episódio ocorreu durante um acidente de trânsito que envolveu um bebê. Uma socorrista do Samu realizou o atendimento e, ao mesmo tempo, protegeu a criança nos braços. “Foi uma cena que me emocionou muito”, conta.
O fotógrafo também recorda diversos casos em que guardas civis municipais salvaram crianças e bebês em situações de emergência, principalmente após engasgamentos. Para ele, esses momentos reforçaram que a profissão vai muito além do ato de fotografar. “Ser fotógrafo não é apenas apertar o botão da câmera e registrar uma imagem. É estar atento ao momento, perceber aquilo que muitas vezes passa despercebido e conseguir eternizar sentimentos, gestos de solidariedade, coragem e humanidade”, afirma.
Entre os acontecimentos históricos
registrados por Morente está o incêndio do Mercadão de Limeira. Em meio aos
escombros, ele percebeu uma Bíblia que permaneceu praticamente intacta. “Eu
sinto gratidão por essa profissão que me permitiu registrar eventos históricos
de Limeira, tanto oficiais quanto particulares. Mesmo diante de tragédias, como
o incêndio do Mercadão, tive a percepção de registrar o inesperado: uma Bíblia
que permaneceu praticamente intacta no meio dos escombros”, relata.
A carreira também inclui registros de batizados, aniversários, casamentos e comemorações de centenários. Morente destaca a confiança conquistada junto às famílias como uma das partes mais gratificantes da profissão. “Me sinto realizado por ter me tornado fotógrafo de confiança de muitas famílias”, afirma.
Mesmo com a evolução das câmeras dos celulares, o fotógrafo acredita que a experiência profissional continua fazendo diferença. “Hoje, praticamente todo mundo tem uma câmera à disposição, mas ter uma boa câmera não significa necessariamente saber fotografar. O profissional precisa saber enxergar o momento antes que ele aconteça, entender a luz, o enquadramento, a composição e, principalmente, ter sensibilidade para perceber aquilo que muitas vezes passa despercebido”, explica.
Para Morente, a fotografia tem como principal função contar histórias. “Fotografar não é simplesmente registrar uma imagem. É contar uma história e eternizar um momento único, seja em um evento social, político, jornalístico, em uma situação de emoção ou em um acontecimento que jamais se repetirá”, afirma.
A fotografia como legado
A relação de Morente com a fotografia ganhou um novo significado com o interesse do filho, Cauã Morente, de 14 anos. O adolescente começou a demonstrar curiosidade pela área aos 11 anos, sem qualquer imposição do pai. “Uma das coisas que mais me emocionam hoje é perceber que, depois de todos esses anos dedicados à fotografia, uma parte dessa história começou a encontrar um novo caminho através dele”, conta.
Apaixonado por carros esportivos, Cauã
criou a página @4rodas_limeira no Instagram. O interesse pelos veículos
despertou também a curiosidade pela fotografia. Por conta própria, passou a
estudar luz, foco, enquadramento e composição. Hoje, já realiza trabalhos com
imagens aéreas feitas com drone e fotografa com câmera profissional. “O que
mais me orgulha é perceber que ele está construindo o próprio olhar”, afirma.
A relação entre os dois também trouxe uma troca de experiências. Em alguns trabalhos, Morente pede a opinião do filho sobre as imagens. “Às vezes ele observa uma cena por um ângulo que eu não tinha percebido. É um olhar jovem, espontâneo e criativo, e eu aprendi que experiência não significa que paramos de aprender”, diz.
Mais do que ensinar o filho a utilizar uma câmera, Morente quer transmitir a importância de observar e interpretar cada instante. “Não quero simplesmente ensinar a ele como usar uma câmera. Quero ensinar a ele a enxergar. A perceber aquele momento que acontece em uma fração de segundo e que talvez nunca mais se repita. Quero transmitir a experiência que adquiri durante 36 anos, mas também quero que ele tenha liberdade para criar sua própria maneira de fotografar”, afirma.
Para o fotógrafo, legado não significa reproduzir os mesmos passos, mas compartilhar conhecimento e permitir que a próxima geração encontre seu próprio caminho.
“Um legado não significa fazer com que alguém siga exatamente os nossos passos. Legado é entregar aquilo que aprendemos e permitir que a próxima geração vá ainda mais longe”, resume.
Caso Cauã escolha a fotografia como profissão, Morente diz que sentirá orgulho por ver parte de sua história continuar. “Durante tantos anos, fui fotógrafo porque amava registrar histórias. Hoje, talvez a fotografia esteja me dando a oportunidade de viver e registrar uma das histórias mais importantes da minha própria vida: a história de um pai e seu filho descobrindo juntos o mesmo amor pela fotografia”, afirma.
Depois de 36 anos atrás das lentes, Morente resume sua trajetória em uma certeza: equipamentos e tecnologias podem mudar, mas o olhar humano continua insubstituível. “Se um dia o Cauã carregar uma câmera profissional e sair para fotografar o mundo, talvez eu olhe para ele e enxergue um pouco daquele menino de 11 anos que começou a registrar imagens simplesmente porque gostava. E vou saber que, naquele momento, não estarei apenas vendo meu filho seguir uma profissão. Estarei vendo parte da minha história continuar. Esse, para mim, é o verdadeiro significado de legado. ”
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